Siga-nos por Email

Seguidores

sábado, 12 de maio de 2012

Vaticano diz para a ONU: todos os pais têm o direito de dar educação escolar para os filhos em casa


Ben Johnson

TURTLE BAY, Nova Iorque, EUA, 1 de maio de 2012, (LifeSiteNews.com) — Numa vitória importante para os direitos dos pais no mundo inteiro, um representante do Vaticano disse que todos os pais têm o direito de dar educação escolar em casa aos filhos.
“O Estado tem de respeitar as escolhas que os pais fazem para seus filhos e evitar tentativas de doutrinação ideológica”, a missão permanente de observador da Santa Sé na ONU escreveu num comunicado divulgado na terça-feira.
Os pais “têm o direito e dever de escolher escolas cuja educação seja no lar, e eles têm o direito de possuir a liberdade de ter essa educação, que por sua vez tem de ser respeitada e facilitada pelo Estado”.
“Essa é uma vitória enorme”, Jeremiah Lorrig, diretor de relações com a mídia da Associação de Defesa Legal da Educação Escolar em Casa (conhecida pela sigla em inglês HSLDA), disse para LifeSiteNews.com. “Ter o apoio do embaixador do Vaticano é incalculável para o movimento de famílias que educam os filhos em casa”.
Um crescente número de pais opta por educar seus filhos em casa por causa da péssima qualidade das escolas disponíveis, ou porque as escolas cada vez mais promovem valores que estão em conflito com a moralidade cristã tradicional.
Em julho do ano passado, o governador Jerry Brown sancionou uma lei que exige que as escolas públicas da Califórnia ensinem “o papel e contribuições” dos homossexuais na história dos Estados Unidos.
“O propósito dessa lei é muito óbvio e é promover a aceitação social da homossexualidade e transexualidade para todas as crianças, e ao mesmo tempo silenciar aqueles que têm convicções religiosas ou morais contra tais estilos de vida”, Brad Dacus, presidente do Instituto de Justiça do Pacífico, disse para LifeSiteNews.com.
O problema não começou com algum projeto de lei, disse ele. “Os distritos escolares da Califórnia já estavam implementando programas de orientação pró-homossexualismo, e também programas para que as crianças aceitem melhor os travestis”, antes mesmo que o projeto de lei 48 fosse elaborado como legislação, muito menos se tornasse lei”, disse Dacus. Por exemplo, a Escola Fundamental Redwood Heights em Oakland implementou um currículo de “identidade de gênero”. “Esses programas já estavam sendo implementados da pré-escola ou jardim-da-infância até a escola secundária”, disse ele.
“Esse tipo de material só traz mais confusão, dificultando que as crianças façam decisões, e solidifica uma orientação sexual diferente do que é mental e fisicamente saudável para as crianças”, Dacus disse para LifeSiteNews.
Em muitos países, os pais sofrem a negação do direito básico de escolher a educação de seus filhos. Em outubro do ano passado, uma comissão do Congresso Nacional do Brasil decretou que a educação escolar em casa “desrespeita a Constituição, o Código Penal, a Lei Nacional de Diretrizes Básicas da Educação e o Estatuto da Criança e do Adolescente”. A situação da educação escolar em casa na Alemanha é tão ruim que uma família fugiu para o Irã para ter o direito de educar seus filhos em casa.
“A chave é conscientizar”, Lorrig disse para LifeSiteNews. “Em muitos desses países que têm leis muito restritivas contra a educação escolar em casa, as pessoas estão perdendo seus filhos”.
O mesmo problema também existe nos Estados Unidos. O Instituto de Justiça do Pacífico e a HSLDA defenderam famílias da Califórnia que educam os filhos em casa de uma decisão do Supremo Tribunal da Califórnia que buscava restringir seus direitos.
Lorrig disse para LifeSiteNews que o maior problema é a incerteza. “Você nunca sabe onde os ataques de surpresa vão aparecer”, disse ele. Por exemplo, a HSLDA teve uma batalha com um juiz do Mississippi, o qual tentou impor maiores restrições nos pais que educam os filhos em casa. “Nunca houve problemas contra a educação escolar em casa no Mississippi”, disse Lorrig.
A HSLDA venceu esses casos. “Mas é uma constante luta entre a liberdade de educar de casa e o desejo de controlar os pais”, disse Lorrig.
O apoio do Vaticano fará uma mudança bem-vinda para a missão internacional da HSLDA. “Encontramo-nos realmente em batalhas na ONU, principalmente em lutas contra a Convenção da ONU sobre os Direitos das Crianças”, disse Lorrig.
Se os EUA ratificarem esse tratado, avisou ele, poderá haver uma erosão dos direitos dos pais sobre a educação e muitos outros aspectos da vida de seus filhos menores. “Constitucionalmente falando, a Convenção dos Direitos das Crianças mudaria a estrutura das políticas de família nos Estados Unidos, minaria a soberania e colocaria essa autoridade nas mãos de remotos autoproclamados especialistas”, disse Lorrig.
A HSLDA facilita ou dá assessorial legal em favor de famílias que educam em casa em cerca de 25 nações no mundo inteiro.
Traduzido por Julio Severo do artigo de LifeSiteNews: Vatican to the UN: all parents have the right to homeschool

sexta-feira, 4 de maio de 2012

À sombra dos bigodes de Nietzsche: "A Vontade Derrotada"

Por Sidney Silveira

[O Contra Impugnantes não tem sido atualizado nas duas últimas semanas, e a partir de agora continuará alguns meses sem novos textos. No momento estou totalmente concentrado na redação do livro A Vontade Derrotada — Nietzsche e o Avesso do Homem, do qual deixo aqui um pequenino tira-gosto: a Nota Introdutória e pequenos trechos do 1º capítulo da obra, intitulado Elementos para a diagnose. Ainda estou conferindo as citações em algumas notas (para cuja redação recorri à memória); noutras, o texto está adaptado para este "belisco" de internet. O trabalho caminhou rápido em duas semanas e já está com cerca de 40 páginas, das quais disponibilizo as 20 primeiras. Trata-se de um projeto antigo, que começou a materializar-se repentinamente, quando comecei a escrever um artigo para o blog e as idéias maturadas durante longo tempo começara a fluir).

Proximamente, em respeito aos nossos fiéis leitores, publicarei uma única coisa por aqui: uma breve exposição de motivos para a interrupção da publicação de novos textos no Contra Impugnantes; as exceções ficarão por conta de notícias sobre lançamento de livros, cursos, etc.

Agradeço, de coração, a todos os que acompanharam o trabalho do Contra Impugnantes ao longo dos últimos quatro anos.]





Sidney Silveira



A Vontade Derrotada


Nietzsche e o Avesso do Homem






Breve Nota Introdutória


"A injustiça de vosso ódio ao cristianismo torna mais grave o motivo sob o qual se esconde: a ignorância".


Tertuliano, Apologeticum.



As astuciosas e virulentas invectivas de Nietzsche contra o cristianismo permeiam toda a sua obra: do rumoroso livro de estréia, O Nascimento da Tragédia, no qual em suas conhecidas palavras "se guarda um circunspecto e hostil silêncio sobre o cristianismo", até os escritos imediatamente anteriores ao fim de sua vida consciente, em janeiro de 1889, crescem em progressão geométrica os juízos desfavoráveis, as acusações brutais, os ataques retóricos e as impugnações doutrinárias contra a moral cristã — e tudo o que a ela se refira: Deus, Jesus Cristo, São Paulo, o Evangelho, a cruz, os dogmas, os santos, os sacerdotes, a castidade, o pecado, a redenção, etc. Somente uma visão do corpus nietzschiano em sua inteireza é capaz de dar a conhecer a magnitude deste embate, de tão revolucionárias conseqüências.


Em síntese, o cristianismo é acusado de ser o maligno artífice da completa degeneração do mundo moderno. Ele é, segundo Nietzsche, o verdadeiro niilismo, pois retira da vida o seu real centro de gravidade —ela mesma —, para colocá-lo no "além", ou seja, no nada. Nesta perspectiva, cristianismo e niilismo seriam conceitos quase unívocos, na medida em que induziriam o homem a abdicar de sua força vital, cuja natureza é expandir-se, afirmar-se no mundo, superar obstáculos, impor-se pela vontade. Alegando razões tais, Nietzsche faz as mais terríveis imprecações contra tudo o que leva o nome de "cristão", num tom avassalador que nem mesmo Voltaire, em seu persistente ódio à Igreja, logrou alcançar.


Tendo como modelo um corrompido conceito de divindade — contraditório, hostil à natureza e à vida —, o cristianismo teria forjado um "mundo-manicômio-católico",[1] no qual o pecado foi inventado para tornar a ciência, a civilização e o enobrecimento do homem impossíveis. Por isso, segundo Nietzsche é preciso esmagá-lo com todas as forças, combatê-lo em todas as frentes, opor-se à sua moral de ressentidos, tão contrária ao vigor das "raças nobres", fatidicamente destinadas a prevalecer sobre as "inferiores". Esta religião concebeu a crueldade louca de um Deus que se deixa crucificar pela salvação da humanidade, e com isto domesticou a "besta loura", o bárbaro ariano, forte por natureza, que existe no fundo de todas as raças aristocráticas. A propósito, veremos como o tortuoso conceito nietzschiano de "raça" pôde ser facilmente instrumentalizado pela ideologia responsável por alguns dos mais hediondos crimes da história humana. E o quanto é forçoso pôr na conta de um simples mal-entendido a assimilação de suas doutrinas por ideologias anti-semitas e por defensores da eugenia como método de higiene social.


Neste contexto, é preciso ressaltar que não é arbitrária a identificação de Nietzsche com um anti-semitismo de cunho racista, visto que, ao lado do horror ao cristianismo, a judeofobia está presente na obra nietzschiana desde os primeiros escritos. Já em O Nascimento da Tragédia, a comparação entre o mito grego de Prometeu e a doutrina do pecado original é colocada na perspectiva do confronto entre o ariano e o semita. À força do ariano identificado com o mito de Prometeu — homem destemido, capaz de olhar o mundo de frente —, Nietzsche contrapõe a fraqueza da decaída raça semítica, que covardemente fecha os olhos para o caráter inquietante da realidade e é personificada na mulher pecadora.[2] O jovem Nietzsche dessa época se dizia feliz por ter finalmente encontrado um lugar onde era possível apreciar a comida "sem precisar tolerar os feios focinhos judaicos", conforme diz numa carta à família datada de 22 de abril de 1866. A referência aos judeus no epistolário nietzschiano desse período é como "nojentos macacos".[3] No Nietzsche maduro, os cristãos chegarão a ser considerados como a última conseqüência do judaísmo.[4]


Numa ambiência conceptual em que o cristianismo, como doença da alma, é contraposto à ébria vitalidade do helenismo dionisíaco, por meio de um pujante estilo literário Nietzsche destila o seu rancor contra tudo o que, para ele, representa a morte do espírito. Em suma, pesadas todas as coisas, o cristianismo é apontado como o grande catalisador e propulsor das enfermidades que, milenarmente, acometeram o Ocidente e tornaram o solo civilizacional insalubre, na medida em que, ao longo dos séculos, "a Igreja concedeu nomes sagrados apenas a lunáticos e impostores in majorem Dei honorem".[5] De acordo com Nietzsche, a imoral idéia de ressurreição, na qual nem o próprio Messias acreditava, foi crida pelos idiotas entre os quais a sua doutrina foi semeada, gerando a partir de então a maior desgraça da humanidade.


Pois bem. Considerando que o ódio ao cristianismo é um dos maiores vetores do labor de Nietzsche como escritor e crítico da cultura, e em vista de tão severas certezas, proclamadas em forma de libelo incendiário, ocorre-nos indagar o seguinte: o que propriamente conhecia Nietzsche do cristianismo e da História da Igreja? O que sabia ele sobre a filosofia cristã? Qual o real valor filosófico de sua impugnação da metafísica, geralmente associada ao que chama de "opiniões religiosas"? A resposta a estas e outras questões implica expor algumas das teses centrais da filosofia nietzschiana e seus evidentes pressupostos —retirados diretamente dos textos de Nietzsche e não de seus intérpretes, muitas vezes ciosos em matizar as conseqüências inelutáveis de várias de suas teorias, pintá-las com róseas cores. A estes recorreremos apenas quando julgarmos necessário enfatizar algo que, de alguma forma, já esteja evidenciado nos próprios escritos do autor d'O Anticristo.


O exame crítico dos textos leva a um resultado acachapante: o conhecimento de Nietzsche a respeito da moral cristã, da Igreja e de seus dogmas é totalmente incompatível com as certezas das quais se diz o grande portador. Em síntese, contemplada em seu caótico conjunto, a feroz crítica nietzschiana ao cristianismo revela-se como uma monumental petitio principii, e não como o resultado de uma análise honesta acerca da realidade criticada, malgrado o tamanho do estrago feito por suas acusações. Neste contexto, mostraremos que o autor alemão desconhecia totalmente a moral cristã por ele colocada no banco dos réus, em nome de sua deturpada concepção de natureza humana — mais do que aporética, absurda.


A propósito, toda má teoria moral tem raiz numa equivocada antropologia, e o caso de Nietzsche é bastante significativo: a inconsistência de sua análise genealógica da moral parte do erro de conceber o homem como um mero feixe de impulsos e afetos cegos, e não como realidade complexa da qual constam potências que o capacitam a ordenar a afetividade e os impulsos à realização dos atos que propriamente o distinguem — realizados pela inteligência e pela vontade. Que o capacitam a ir além dos dados apreendidos pelos sentidos e do princípio da busca do prazer e fuga do desprazer que, de acordo com Nietzsche, seriam a suprema norma do obrar humano no período por ele chamado de pré-moral (o qual, em sua mitologia genealógica, é anterior à constituição do Estado). Nessa época, os homens matavam uns aos outros para a satisfação das necessidades de conservação da vida, sem que nisso houvesse qualquer imoralidade, pois a moral surge com a coação estatal. Veremos o caráter absolutamente quimérico e fantasioso desta doutrina.


Na verdade, o homem nietzschiano nada tem de humano ou "demasiado humano". Ele é o anti-homem por excelência, produto de uma concepção primária na qual se mesclam evolucionismo, biologismo, perspectivismo e um insano voluntarismo. E o seu "super-homem", ou "além-homem", a mais dolente aspiração que, com fumos de teoria filosófica, o orgulho humano já concebeu: anseio de poderio ilimitado de uma vontade irrefreável que se afirma sobrepujando todas as demais e plasmando novos valores. Não à toa, Nietzsche identifica a felicidade humana com essa vontade que, vencendo quaisquer obstáculos, impõe aos homens débeis uma estrita obediência, dada a supremacia e o caráter imperioso de seus mandatos. Em tal horizonte, se o homem da raça "aristocrática" é chamado a superar-se a partir de suas próprias forças vitais, não é com outro propósito senão o de transformar-se neste sombrio arquétipo.


O intuito deste estudo não é analisar a evolução do pensamento de Nietzsche ao longo de sua trajetória, ou seja, investigar os seus motivos ou a ambiência histórica em que lograram manifestar-se— ao modo de uma biografia intelectual —, mas apresentar em bloco algumas das principais teorias nietzschianas, com base nos próprios textos do autor da Genealogia da Moral, e apontar a ausência de verdadeiro estatuto filosófico em suas impugnações; estas, contempladas em seu conjunto, manifestam mais do que qualquer outra coisa um projeto político de "salvação" da cultura ocidental por um arianismo que busca apoiar-se numa Hélade conformada, em boa parte, à sua poderosa imaginação. Mostrar também que essas teorias padecem de incurável corrosão espiritual, manifesta com particular ênfase no conceito de vontade de potência, seja como violenta autodeterminação individual ou como misteriosa força atuante no mundo.


Na presente obra, a autópsia da negação da metafísica por Nietzsche passa pela utilização dos próprios princípios metafísicos contra o autor alemão — numa espécie de contraveneno, de antídoto contra a sua volúpia irracionalista. Isto porque não basta apenas mostrar o quanto tal negação foi feita com barulho, malícia, retórica e arte literária, mas sem nenhuma consistência; a nosso ver, é preciso ir além e opor à cega gritaria de Nietzsche contra a inalienável natureza teorética da filosofia o caráter universal da metafísica como ciência. Neste sentido, o capítulo intitulado Tomás de Aquino contra Nietzsche, que muito bem poderia dar título a este livro, colocará frente a frente a metafísica do ser e aquele para quem o ser "é pura ficção". Mais do que profilático, um confronto como este no atual momento da história da filosofia serve para mostrar a caducidade da crítica nietzschiana e contribuir, ainda que no modestíssimo âmbito desta publicação, para recolocar a metafísica no lugar que lhe é de direito.



Assim, à psicologia nietzschiana, eivada de biologismo, contraporemos a psicologia tomista — baseada no ser. E não se espante o leitor ao ver a identificação de algumas das teses de Nietzsche com doenças da alma classificadas por Santo Tomás. Não se espante ao vê-las ganhar contornos de uma realidade espiritual que o Doutor Comum da Igreja chamava de cæcitas mentis: dolorosa cegueira da mente nascida de uma habitual disposição psicológica contrária à verdade. Não se espante, pois, se enxergar sob os vastos bigodes de Nietzsche a azeda baba de Caim. E se concluir que a sua visão da moral como "a Circe sedutora dos filósofos" é palha, e nada mais. Mas sobretudo não se escandalize; lembre-se de que é abundante no próprio Nietzsche o uso de categorias da psicologia e da psiquiatria para atacar os moinhos de vento do mundo cristão por ele imaginado, repleto de "epiléticos das idéias".[6]


Sem dúvida, Nietzsche se transformou no ídolo crepuscular de uma época que, em muitos aspectos, parece dar a algumas de suas idéias um caráter profético, razão pela qual Giovanni Reale, num livrinho chamado Sagezza Antica – terapia per i mali dell'uomo d'oggi, afirma que o autor de Além do Bem e do Mal é o profeta do niilismo, citando um fragmento de 1887 no qual Nietzsche dizia ser o niilismo identificável pelo seguinte fato: os valores supremos se desvalorizaram. Seja como for, não caiamos no erro de confundir a maior ou menor projeção histórica de uma concepção de mundo, de uma idéia — ou ainda de uma ideologia, ao modo como a concebia Antoine Destutt — com a verdade ou falsidade dos seus postulados. Estes podem e devem ser permanentemente expostos à crítica filosófica, em vista da qual muitas vezes os ídolos mostram os seus pés de barro.


Seria anacrônico imputar a Nietzsche o fato de ter criado uma obra que tem o deicídio como vértice, a partir de uma acusação à religião cristã que diz mais do seu cobiçoso projeto transformação estética e política da realidade do que da essência do cristianismo. Preferimos atribuir a ele aresponsabilidade de conceber um homem que não existe. De supor que essa sua ficção abismal — mescla ilógica de forças cegas e indômitas — reflita algo do que é o homem.


Portanto, acusamos a Nietzsche do crime de lesa-humanidade.




Capítulo I


Elementos para a diagnose: primeira aproximação às teses nietzschianas



A obra de um homem sempre expressa algo de sua personalidade. No caso dafilosofia, é natural que assim o seja, pois a verdade é uma espécie singular de interseção entre duas intimidades: a da pessoa e a da coisa. Ela acontece quando a pessoa, por meio de uma de suas potências mais recônditas (a inteligência, que é imaterial no ato de entender), penetra, descortina, assimila a forma da coisa — que está para além das exterioridades, dos contornos visíveis a olho nu. Nestas ocasiões, o íntimo da pessoa  o íntimo da coisa, ou, noutras palavras, o que é imaterial na pessoa apreende o que é imaterial na coisa: o eidos enquanto princípio de organização formal, de operação e de inteligibilidade.[7] Ora, sendo o problema da verdade absolutamente central em filosofia, sempre será possível entrever na obra de um filósofo algo de sua personalidade, ou seja, apreciar o seu estilo pessoal e único de assimilar a verdade ou dela aproximar-se.


Mas tenhamos cuidado. Isto não significa que toda obra filosófica seja, como certa vez escrevera Nietzsche, um tipo de memória involuntária, confissão espontânea do filósofo que, in actu exercito de seu labor intelectual, presta contas com a vida. Concedamos porém que a sua obra seja assim: autobiografia espiritual do princípio ao fim, na medida em que poucos filósofos falaram tanto de si mesmos como Nietzsche — poucos fizeram tantas e tão apaixonadas referências ao próprio "eu". Ocorre que esse personalismo exacerbado, essa excessiva auto-referência, que beira a egolatria, indica um sestro e não uma virtude. Indica uma apaixonada projeção do eu sobre as coisas, e não a assimilação das coisas pelo eu. Indica, pois, certa incapacidade de alcançar a região das formas inteligíveis, onde mora a verdade.



O caso de Nietzsche é patente. À sua filosofia poderia perfeitamente aplicar-se, mais do que à de qualquer outro, o que dissera Éttienne Gilson[8] da deKant: ser contemplada à luz do patológico. A propósito, tomamos aqui o vocábulo "patológico" numa acepção radical, a saber, como razão das dores da alma — que em Nietzsche possui material abundante a ser analisado: das primeiras obras àquelas que antecederam à sua entrada em estado catatônico irreversível, durante aproximadamente dez anos. Noutras palavras, em seus livros há incontáveis indicadores, diretos ou indiretos, do estado de enfermidade psíquica de que padecia, no qual a vontade, deinstância inexpugnável da liberdade, desvirtua-se e se transforma em potência opressora da personalidade, na medida em que deixa de ser uma inclinação conseguinte ao ato do conhecimento para absolutizar-se, anular-se como apetite intelectivo tendencial ao bem. Em suma, ao apetecer narcísica e exageradamente o próprio bem — em detrimento de todos os demais bens —, a pessoa se destrói pela vontade.[9]


Não seria demasiado dizer que o brilho da obra de Nietzsche é o da morbidez, virulenta luz de um talento materializado em meio a crises nervosas agudas — das quais desde o final da adolescência ele dera sinais intermitentes, como cegueira passageira, terríveis dores de cabeça, náuseas, vômitos e vários outros sintomas que costumavam prostrá-lo, física e psiquicamente. Crises que, no parecer de alguns especialistas, foram lentamente preparando a fase final de sua loucura. É bastante conhecido dos estudiosos da filosofia e da vida de Nietzsche o diagnóstico do renomado neurologista P. J. Möebius (que escreveu um livro sobre as patologias de Nietzsche[10] e tem em sua obra descobertas importantes, como a dasíndrome que leva o seu nome): Nietzsche já era um alienado mental na época em que escreveu A Gaia Ciência.


Alguns autores, médicos e não médicos, procuraram explicar a loucura de Nietzsche pela sífilis de que, presumivelmente, ele teria sido acometido na juventude,[11] e a isto nos referiremos adiante. O nosso propósito por ora é apontar para algumas evidências de que a sua obra é reflexo de um habitual estado de desordem espiritual que afeta a relação da inteligência com as coisas — além de deixar consignado o caráter arbitrário e a inconsistência de algumas das suas principais teorias. Apontar para o fato de que o vitalismo irracionalista (como alguns com precisão caracterizaram a sua obra) é sintoma da doença da alma à qual Santo Tomás de Aquino chamava de infirmitas:[12] debilidade proveniente de paixões desregradas que levam a distúrbios na imaginação e acabam por induzir o homem a agir contrariamente à sua estrutura essencial, ou seja, agir contra a própria natureza que o constitui. E, no final das contas, agir contra a razão.


É evidente que um psicólogo de orientação materialista (verdadeiracontradictio in terminis) preferirá associar as enfermidades psíquicas de Nietzsche, que culminaram em sua demência, aos problemas físicos que claramente o acometiam desde a juventude, e nem nós negamos que existam transtornos de ordem corporal com sintomatologia psíquica. Mas, como demonstra o psicólogo tomista Martín Echavarría no extraordinário livro La Práxis de la Psicología y sus niveles epistemológicos según Santo Tomás, neste caso se trata de doença da alma per accidens. E a enfermidade da alma a que nos referimos, como causa primária de outras patologias, é distinta tanto das doenças corporais, como das desordens da vontade e da inteligência típicas dos transtornos da personalidade. Ela é, segundo Echavarría, uma enfermidade psico-sensitiva, pois afeta a alma a partir dossentidos internos, sobretudo a imaginação.[13]


Em Ecce Homo, obra escrita em data bastante próxima à crise final que o silenciou definitivamente, e que é a um só tempo relato biográfico, comentário de livros anteriores e autodefesa exaltada, os epítetos aplicados por Nietzsche a si mesmo já denunciam um estado narcísico fora de qualquer padrão de normalidade: "Eu sou o Anticristo". "Sou o primeiro imoralista". "Sou o homem mais terrível que jamais houve". "Sou o destruidor por excelência". "Sou dinamite". E não se suponha que se trate de estilo retórico, pois estes e muitos outros ditos são uma constante em sua obra, inclusive no epistolário. Em cartas a amigos — sobretudo nas que se aproximam do momento paroxístico de sua doença — Nietzsche escrevia coisas megalômanas como "eu sou Deus", "sou Dioniso", "sou o Crucificado", "sou uma deusa", "sou César", etc. E hoje, à luz de sua biografia, temos elementos suficientes para supor que, de uma forma ou de outra, Nietzsche acreditava firmemente identificar-se com esses personagens. Lembremos que, em data não muito distante do fim de sua vida consciente, o amigo Franz Overbeck encontrara-o em casa dizendo-se "sucessor de Deus", "o Crucificado", etc., chorando convulsivamente e dançando de forma grotesca, cheio de terror nos olhos.


O fato é que, na maior parte de sua obra — e não apenas no Ecce Homo —, há sinais de uma delirante enfermidade mental, impressionantes saltos lógicos nas teses, associações fantasiosas e anacrônicas entre realidades distantes entre si no tempo (e díspares em seus princípios e fins), razão pela qual houve estudiosos que apontaram para o seguinte fato: teorias como as do super-homem, do eterno retorno, da transvaloração de todos os valores, da rebelião dos escravos, da vontade de potência (ou de poder), etc., seriam a expressão de diferentes desordens psicopatológicas.[14] O resultado não de raciocínios ou pensamentos concatenados entre si, mas de estados subjetivos de reação e autodefesa contra o inóspito mundo produzido por sua imaginação.


Como afirma Teofilo Urdañoz, o que Nietzsche ofereceu ao mundo foi sua própria tragédia de enfermo em dolorosa exaltação da ânsia de viver.[15]




Breve quadro da assistematicidade, das contradições e aporias nietzschianas


Diga-se, antes de tudo, que é inegável a inspiração poética dos escritos de Nietzsche. É inegável o caráter atrativo do seu estilo demolidor, de apaixonada veemência, assim como a sua sensibilidade artística, que ele próprio elogia ao dizer que levou à perfeição o idioma alemão em prosa[16]. Ocorre que, não obstante esta qualidade de escritor, a sua obra carece dos traços elementares que distinguem um filósofo: unidade, coerência, profundidade, sistematicidade, verdade, etc. Ademais, os problemas inerentes a dois dos principais pontos cardeais da filosofia (metafísica e gnosiologia) passam ao largo de seus escritos, pois, quando são citados, é para expressar a ojeriza de Nietzsche e sobretudo os seus preconceitos contra matérias que patentemente desconhecia.


Em sua negação da metafísica, Nietzsche contrapõe o devir ao ser de forma primária, por desconhecer ou simplesmente recusar com obstinação as resoluções dadas desde Aristóteles, e também ao longo da história da filosofia, às aporias heraclíteas, o que na verdade é congruente com o quase completo esmagamento da dimensão teorética em sua filosofia vitalista. Assim, Heráclito — uma de suas referências intocáveis — foi aquele que "descobriu que o ser é uma ficção vazia", conforme afirma numa passagem de O Crepúsculo dos Ídolos. Tal negação, como a propósito é regra em Nietzsche, é feita sem que ele arrole quaisquer elementos probatórios a favor do seu "argumento"; basta-lhe pontificar que assim o é, e ponto final.



Vale dizer que o mesmo ocorre com a sua irracional negação de todas as categorias ontológicas que a metafísica ensina, sem se dar conta de que, sem elas, os seus próprios escritos estão invalidados in nuce. Mas não importa: Nietzsche encasquetou que o mundo metafísico, chamado por ele de "transmundo" (Hinterwelt), é um dos sintomas da decadência da mentalidade moderna, razão pela qual ele se coloca orgulhosamente, em A Gaia Ciência, "entre os homens ímpios e antimetafísicos", em nome do superior conhecimento da ciência. [17] Isto devido ao fato de que a metafísica é pervertida e "ilógica" (unlogisch), curiosa crítica em se tratando de um autor que escrevera reiteradas vezes que a lógica dedutiva de nada serve.


Como se pode inferir de tais malogradas idéias, algumas páginas da metafísica de Duns Scot, Avicena ou Santo Tomás de Aquino talvez ensandecessem de vez o nosso filósofo, cujos conhecimentos sobre a natureza da metafísica não eram, em verdade, iguais a zero; eram simplesmente negativos. Hoje, temos elementos suficientes para concluirque, ao acusar a metafísica de "prodigiosa inconsciência" e "cegueira", Nietzsche o fazia com total desconhecimento de causa, por canhestramente confundi-la com opiniões religiosas e por supor que fosse ela o resultado da "crença indevida na noção de "sujeito".[18] Veremos isto a seu tempo.


Analisados os textos em que se refere à metafísica, impressiona a ignorância de Nietzsche em questões sobre as quais opina com certeza absoluta. Sua atitude é nestes casos análoga à do neófito que, não conhecendo o que é uma artéria, chega a um seminário de cardiologia para pontificar acerca das novas técnicas de cirurgia aórtica. E isto não acontece apenas em relação à metafísica — contra a qual escreveu páginas de desastrosa beleza —, mas também em gnosiologia, em cosmologia, em antropologia, em psicologia, etc. Diga-se que os escritos nietzschianos referentes a tais âmbitos do conhecimento pegam apenas de empréstimo o nome deles, por uma espécie de analogia imprópria de caráter metafórico. São teorias cujo fulgor não reside em haver nelas verdade, mas sim um tipo enfermiço de certeza: a das idéias-fixas. Trata-se, no entanto, de idéias-fixas entre as quais se vislumbra um ponto comum, motor de boa parte de seus escritos: o profundo ódio ao cristianismo e aos aspectos da filosofia grega que os cristãos assimilaram.



Vitalismo irracionalista, uma marca distintiva


Em O Nascimento da Tragédia, Nietzsche já deixara claro o princípio que regeria toda a sua obra: o de uma brutal afirmação da vida. Assim, ao dizer que o "socratismo lógico" e o "sacrilégio de Eurípides"[19] assassinaram o espírito dionisíaco da tragédia grega, Nietzsche identifica esses dois autores não apenas como o ponto incisivo de decadência da cultura helênica, mas sobretudo como os grandes incentivadores do pensamento metafísico — que seria tão importante para o cristianismo. Pensamento metafísico doentio e contrário à afirmação da vida, de acordo com o seu parecer. Neste contexto, dirá Nietzsche com acerto, e indisfarçável desgosto, que a influência de Sócrates se estendeu sobre o mundo como "uma sombra que cresce sob os raios do sol poente".[20] E referindo-se retrospectivamente a esta sua obra inaugural, confessará a certa altura:


"Em todo o livro há um silêncio circunspecto e hostil contra o cristianismo. Este não é apolíneo nem dionisíaco; nega todos os valores estéticos, os únicos valores que O Nascimento da Tragédia reconhece".[21]


A vida que o alemão glorifica — da qual já dera indicações em seu livro de estréia — tem como emblema o deus grego Dioniso (ou Diónisos -Διώνυσος), contemplado como um símbolo divinizado da afirmação das forças instintivas e primitivas do homem, constituídas por uma vitalidade irracional, cega, que não se detém perante obstáculos. Nietzsche manteve tal ideal ao longo de toda a sua trajetória de escritor e crítico da cultura. Ele é a bandeira das suas reivindicações, coerente com a concepção primordial do seu projeto para os homens, conforme se lê numa das Considerações Intempestivas: "Amar a vida cega e loucamente". Ora, é justamente esseamor desprovido de Logos, já que as coisas não são amáveis pelo grau de ser que possuem (lembremos que Nietzsche negara o ser em favor do devir), esse amor como brutalidade instintiva, que o profeta Zaratustra anuncia como zeloso ratificador da vida[22] e adorador da natureza.


Cumpre neste ponto salientar o seguinte: não peçam ao autor alemão uma coerente definição de natureza, ao modo aristotélico. Não lhe peçam para definir o caráter da matéria, e muito menos para esboçar uma teoria sobre o papel da matéria nos entes compostos de matéria e forma. Ou ainda para definir satisfatoriamente a vida e sobretudo a vida humana, demarcando-lhe características próprias e inalienáveis a partir das potências que distinguem a sua essência, até porque para ele essas categorias de nada valem. Não, a sua glorificação da vida (e da natureza) é totalmente irracional, ou seja, não há por que buscar nela um sentido maior, uma ratioA vida é, pois, valor absoluto ao qual todos os demais se subordinam. Instinto de uma existência que se afirma no mundo sem qualquer telos, sem qualquer finalidade preestabelecida. Como revela uma conhecida passagem de Humano, Demasiado Humano, "para o homem comum, (...) o valor da vida consiste apenas no fato de ele considerar-se mais importante que o mundo".[23] Com muito acerto diz o prof. Valmor Luiz Oselame, da PUC-RS, que, "para Nietzsche, vida é um processo individualizado sem nenhuma finalidade senão a de incrementar-se a si mesma".[24]



Ora, nada mais conseqüente com a glorificação da vida em tais termos do que a pressuposição de que toda vida humana é a afirmação de uma vontade que se contrapõe às demais. E, movido pelo ódio à "moral dos escravos", ou seja, ao cristianismo com o seu ascetismo contrário à vida (no parecer de Nietzsche), a partir daí realizar um salto para a idéia de que o homem do porvir é o super-homem ou além-homem, o homem superior que realizará uma espécie de libertação do mundo por meio da transvaloração de todos os valores da moral do rebanho. Libertação refletida na completa superação da moral e na aniquilação de Deus. É neste exato contexto que Zaratustra considera que "o homem é algo que deve ser superado".[25]


sutil identificação do super-homem (que transvalora todos os valores e impõe a sua vontade) com a "besta loura, bárbara", germânica — homem forte e ardiloso, qual ave de rapina, que Nietzsche elogia com ditirâmbicas expressões — é congruente com esse vitalismo irracional, pano de fundo de toda a sua obra. O ariano quase divinizado expressa a força radical da vontade de potência (ou de poder), a besta loura que apenas responde a impulsos cegos, é violenta, devastadora, cruel e não teme a morte. Ou melhor, não sente medo de nenhum perigo, pois é pura espontaneidade e ébria afirmação de sua própria força no mundo — modelo de saúde espiritual, segundo Nietzsche. Ora, é provavelmente tendo no horizonte mental esse bárbaro personagem que Nietzsche põe na boca Zaratustra outra frase bastante famosa: "Onde encontrei vida ali também encontrei uma vontade, mas não a simples vontade de viver, e sim uma vontade de domínio [ou de potência]".[26]


Em suma, a vida humana é, essencialmente, vontade de poder. E, em tal contexto, não existe vontade livre, mas apenas vontades fortes oudébeis, sendo as débeis destinadas a ser dominadas pelas fortes. Também aqui, como não poderia deixar de ser, não se peça a Nietzsche para definir o que ontologicamente seja a vontade, pois essa coisa de definições é típica da "cultura socrática", quer dizer, do homem teórico e antidionisíaco que ele tanto odeia. Passa bem longe de suas apaixonadas idéias que a vontade sejauma das potências superiores da alma humana, sobre a qual falaremos amiúde.


Entre os aspectos fundamentais das idéias de Nietzsche está, portanto, o mais radical voluntarismo antiintelectualista, cego, terrífico, avassalador, que não logra sair do abismo em que jaz. Ele serve como pano de fundo de boa parte das teorias nietzschianas. Mas podemos aproximar-nos de algumas outras características facilmente identificáveis em seus escritos.


Vamos a elas.




Esteticismo — a apaixonada recusa da ordem


O esteticismo nietzschiano ganha o seu peculiar contorno no contexto da sui generis concepção da cultura como resultante de um jogo de forças vitais, apolíneas e dionisíacas. Neste ponto, convém salientar que Nietzsche é, por excelência, um esteta, pois considera os valores estéticos como o solo fértil da civilização — tendo em vista que, na própria natureza, "os instintos estéticos são onipotentes".[27] Esta visão do jovem Nietzsche em O Nascimento da Tragédia pode ser considerada como uma profissão de fé artística, o princípio que, com diferentes formulações, foi mantido ao longo de sua obra: o da supremacia dos valores estéticos sobre os inúteis valores morais; o do vigor da jubilosa fruição da beleza em detrimento da tibieza de sua teorização racional.



projeto de valorização da vida pelo viés da estética é, em Nietzsche, caudatário de sua forçosa contraposição entre a racionalidade, como frio instrumento técnico, e a vida como percepção vertiginosa e intuitiva do devir, sendo este a única realidade verdadeiramente real na perspectiva nietzschiana — não captável por raciocínios ou sutilezas dialéticas. Assim, tendo cindido o homem em duas instâncias aparentemente incomunicáveis entre si, é conseqüente que o autor alemão afirme que a razão é frágil e insuficiente para apreender os fenômenos artísticos.[28]Entre o conhecimento científico e a fruição da beleza haveria, portanto, um hiato impossível de ultrapassar; a beleza seria percebida apenas pela intensificação da vida em condições extremas, experiência tipicamente dionisíaca, ao modo de um profundo espasmo estético que a razão não lograria alcançar, frêmito artístico passível de ocorrer no ditirambo dionisíaco "em que o homem é incitado à máxima manifestação de todas as suas capacidades simbólicas".[29]


Apaixonado pela idéia de que a modernidade foi engendrada pelo corruptor "socratismo lógico", Nietzsche realiza uma arbitrária separação entre processo cognoscitivo e percepção da beleza, sem imaginar que todas as atividades propriamente humanas são, por assim dizer, iluminadas pela refluência do intelecto sobre as coisas percebidas pelos sentidos, por aquilo que Santo Tomás de Aquino chamava de reditio completa: o movimento de ida à realidade e retorno a si realizado pela inteligência. Em síntese, dada a constituição noético-pneumática das potências superiores do homem, a sua percepção da beleza sempre se dá pelo fulgurante ato em que intelecto e inteligido se tornam uma só coisa, ou seja, identificam-se formalmente. Sendo assim, não é possível ao homem perceber algo como belo sem esta peculiar intervenção da inteligência que se projeta sobre as coisas, num caudaloso refluir sobre elas em que os olhos do espírito se mantêm totalmente abertos.



Não há, portanto, estética humana (aisthesis) sem algum grau de entendimento (logos), e por isso a compreensão de toda a vida humana como fenômeno estético[30] é de um reducionismo somente concebível no contexto de uma teoria irracionalista na qual beleza e racionalidade são colocadas como realidades estanques ou contrapostas. Ora, mesmo sendo a arte, como observava Nietzsche, capaz de proporcionar as mais ébrias experiências dionisíacas, isto não implica dizer que o valor de beleza deixe de ser atribuído pela inteligência, pois o homem é constituído de forma tal que mesmo o mais cego mergulho na imanência e na matéria se dá por meio de algo que nele transcende ao imanente e ao material: esta secreta potência para os inteligíveis que Aristóteles chamava de "intelecto possível", sem o qual o homem sequer pode dizer-se propriamente "humano". Em suma, o belo e o sublime não podem entrelaçar-se para além da racionalidade, como pressupõe a concepção nietzschiana, porque são reconhecidos como tais... justamente pela inteligência![31]


Em resumo, uma sociedade em que os valores estéticos são os únicos (ou os predominantes) é uma sociedade da qual a beleza foi, paradoxalmente, expulsa, pois transformar a beleza em valor "absoluto" implica deformá-la, tornar-se incapaz de enxergar que o belo (pulchrum) só pode lograr algum estatuto como um dos transcendentais do ser. Mas lembremos que o ser para Nietzsche é uma "ficção", e nada mais conseqüente com isto de que cair em alguma forma de esteticismo, embora estudiosos contemporâneos de sua obra tentem negar tal característica. A recusa da inteligibilidade do belo é uma recusa da ordem natural das coisas conforme captada pela inteligência.



A intenção de revigorar a arte pelo espírito da tragédia grega é, em Nietzsche, orientada pela idéia de que a arte tem valor em si mesma — de forma autônoma, sem qualquer orientação teleológica —, o que está totalmente de acordo com a sua premissa de que os valores estéticos são os verdadeiros e fundamentais. A propósito, num texto do Nietzsche maduro, chama atenção a sua observação de que "o combate à finalidade na arte é sempre o combate contra a tendência moralizante na arte, contra a sua subordinação à moral".[32] Aqui, mesmo levando em conta a benevolente defesa do seu amigo Erwin Rohde contra as críticas do filólogo alemão Ultrich von Williamowitz-Möllendorf, para quem Nietzsche menosprezara Aristóteles por conceber uma estética sem considerar o problema da catarse,[33] apontamos para um fator importante: a percepção de Nietzsche, beirando a inconsciência, de que racionalidade e moralidade possuem íntima ligação, inextricável liame; a partir disto, é possível considerar que a sua negação da razão na apreciação da arte não seria outra coisa senão a afirmação do agir humano como essencialmente imoral e irresponsável, em apoio à idéia de que juízos morais não valor algum. Em tal contexto, o que Nietzsche chama de "inocência do devir" seria identificável tão-somente pelo olhar artístico, amoral por definição.


(...)


___________________

1-Vale lembrar que o protestantismo também não é poupado por Nietzsche. Em suas famosas palavras, o pastor protestante é o avô da filosofia alemã, e o protestantismo, o pecado original dessa filosofia. Ao longo de sua obra, reiteradas vezes Nietzsche se volta não apenas contra a Igreja, mas também contra o protestantismo em cujo ambiente familiar fora criado — sendo pastores o seu pai e os seus avós e bisavós maternos. Isto não o impediu de sentir desde cedo que o ateísmo lhe chegava comopor instinto (cfme. Ecce Homo, Por que sou tão discreto).



2- O Nascimento da Tragédia, 9.



3- cfme. Domenico Losurdo. Nietzsche, O rebelde aristocrataBiografia intelectual e balanço crítico. 3. Socratismo e judaísmo "atual".



4- Em verdade, Nietzsche não foi "instrumentalizado" apenas por anti-semitas vinculados ao que posteriormente seria o nazismo: já no começo de sua trajetória ele era louvado por grupos anti-semitas que lhe enviavam jornais e panfletos e o saudavam como grande filósofo. No último Nietzsche, a identificação dos judeus como o povo mais funesto de toda a história universal não deixa margem a dúvidas quanto a este ódio perene, duradouro, obstinado. Quanto à eugenia, é expressa a preocupação de Nietzsche com o fato de que, de acordo com os seus devaneios, a raça dos conquistadores e dos senhores arianos estaria sucumbindo fisiologicamente (Genealogia da Moral, I, 5), razão pela qual dever-se-ia estar atento à "comprometedora fecundidade" das classes inferiores, dos fracos e mal-sucedidos (cfme. Vontade de Potência, 19, 3).


5- O Anticristo, n. 51.


6- O Anticristo, 54. A diferença é que, num caso, trata-se da projeção de idéias preconcebidas, moldadas por um ódio pertinaz; noutro, da sólida construção de uma psicologia que não se fecha às evidências e se baseia na profunda análise da estrutura da psique humana, suas potências, tendências e características distintivas.


7- Mesmo nas coisas materiais, a forma como princípio de operação e de inteligibilidade é absolutamente imaterial. Ela é, como dizia Santo Tomás, ato primeiro organizador da matéria e está unida a ela sem se confundir com a sua materialidade; ela é a essência daquela existência — que, a propósito, são distintas na coisa.


8- Em Réalisme thomiste et critique de la connaissance.


9- Uma das conquistas da filosofia de Santo Tomás foi provar com razões suficientes — neste ponto, aperfeiçoando a doutrina aristotélica — que a vontade é, por natureza, apetite intelectivo do bem. Ou seja: tudo o que ela deseja (mesmo no caso das coisas mais torpes), deseja-o sub ratione boni. Noutras palavras, esse apetite tende naturalmente a algo apresentado pela potência cognoscitiva como bom em si, mesmo que não o seja na realidade. Assim, tendo a vontade como objeto formal o bem em sentido universal, pode-se dizer que a vontade de potência de Nietzsche — quando referida aos indivíduos —seria o seu estado mais patologicamente antinatural, ou, noutras palavras, representaria umadesnaturação completaesterilidade caracterizada pelo constante e violento movimento de auto-referênciade eleição do próprio bem apetecido em contraposição aos demais. Uma vontade em tal estado destrói a personalidade por ferir o âmago da pessoa — retirar-lhe esse verter-se naturalmente às coisas que estão fora e além dela.



10- Paul Julius MöbiusÜber das pathologische bei Nietzsche, Leipzig, 1902.



11- Richard Blunck, autor de Nietzsche, Enfance et jeunesse, é um dos que defendem a tese de que o estado apoplético final de Nietzsche deve ser explicado pela sífilis da qual o escritor alemão teria sido contaminado em 1866.



12- "Quando uma afecção não é moderada de acordo com a regra da razão, mas sim por algum excesso ou defeito, se chama enfermidade (infirmitas) da alma. E isto acontece sobretudo nas afecções do apetite sensitivo que se chamam paixões". Santo Tomás de AquinoSuma Teológica, I-II, q.77, art.3. Ocorre que, afetando a imaginação, esse tipo de enfermidade acaba por afetar a inteligência — e por conseguinte a vontade —, pois o homem conhece as coisas a partir dos dados que são recebidos pelos sentidos externos e laborados pelos sentidos internos, ocasião em que se transformam em imagens (phantasmata) a ser iluminadas pelo intelecto agente, como ensinava Santo Tomás. A propósito, sobre a teoria da conversão aos fantasmas encontramos na internet um bom resumo, escrito por Jonas Madureira.



14- Por exemplo: W-Lange-Eichbaum (Nietzsche, Krankheit und Wirkung) eReyburn-Hinderks (Friederich Nietzshe).



15- Teofilo UrdañozHistoria de la FilosofíaTomo V – Siglo XIX: Socialismo, materialismo y positivismo. Kierkegaard y Nietzsche. Madrid: 1975, Biblioteca de Autores Cristianos (BAC), p. 302.



16- "Creio que com este Zaratustra levei à perfeição o idioma alemão. Depois de Lutero e Goethe, era preciso dar um terceiro passo". Carta enviada em 1884 a Erwin Rohde, conhecido filólogo e helenista alemão. A propósito, Rohde deixou de ser amigo de Nietzsche em 1887, por divergências quanto à obra do poeta Hippolyte Taine. No ano anterior, após encontrar-se com o filósofo em Leipzig, Rohde afirmara que a loucura de Nietzsche chegara a tal estado, que ele não mais parecia cidadão deste mundo.



17- A Gaia Ciência, n. 344.



18 - Cfme. Vontade de Potência, n. 484.



19- De acordo com Nietzsche, Eurípedes cometera o "sacrilégio" de em sua obra substituir o mito pela razão. Sócrates, por sua vez, fora outro autor que se tornara o grande adversário e destruidor da arte trágica. Ele e seu discípulo Platão teriam contribuído para excluir a poesia da Pólis.



20- Cfme. O Nascimento da Tragédia, § 15.



21- Ecce Homo. O Nascimento da Tragédia, n. 1.



22- Assim Falou Zaratustra, I, 3.



23- Humano, Demasiado Humano, I, Das primeiras e últimas coisas.




25 - Assim Falou Zaratustra, Prólogo.



26- Assim Falou Zaratustra, II, Da Superação de Si.



27- Cfme. O Nascimento da Tragédia, § 4.



28- Neste contexto, o "sacrilégio" de Eurípedes passa por sua crença no princípio socrático de que as coisas, para ser belas, devem ser inteligíveis (Cfme. O Nascimento da Tragédia, § 12).



29- Cfme. O Nascimento da Tragédia, § 2.



30- Cfme. A Gaia Ciência, II, n.107.



31-Ademais, o fato de Nietzsche ter gritado contra a existência do ser, da alma humana, do conceito de substância, da idéia de verdadeiro e falso, etc., não traz nenhum suporte para uma teoria estética que parte da aporética cisão entre as instâncias sensitiva e intelectiva na percepção das coisas e, por conseguinte, de sua beleza.



32- O Crepúsculo dos Ídolos, "L'art pour l'lart".



33- Querelle autour de 'La naissance de la tragédie'. Nietzsche, Ritschl, Rohde,Willamowitz, Wagner, Paris: Vrin, 1995, p. 123. 

segunda-feira, 16 de abril de 2012

Animais, Plantas e Cadáveres são defendidos por Lei, mas crianças deficientes indefesas, NÃO. Veja:

DOS CRIMES CONTRA O RESPEITO AOS MORTOS

Violação de sepultura

Art. 210 - Violar ou profanar sepultura ou urna funerária:

Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.

Destruição, subtração ou ocultação de cadáver

Art. 211 - Destruir, subtrair ou ocultar cadáver ou parte dele:

Pena - reclusão, de um a três anos, e multa.

Vilipêndio a cadáver

Art. 212 - Vilipendiar cadáver ou suas cinzas:

Pena - detenção, de um a três anos, e multa.


Lei 9.605/98 (Lei dos crimes ambientais) DOS CRIMES CONTRA O MEIO AMBIENTE

Seção I
Dos Crimes contra a Fauna


Art. 29. Matar, perseguir, caçar, apanhar, utilizar espécimes da fauna silvestre, nativos ou em rota migratória, sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente, ou em desacordo com a obtida:
Pena - detenção de seis meses a um ano, e multa.
§ 1 . Incorre nas mesmas penas:
I - quem impede a procriação da fauna, sem licença, autorização ou em desacordo com a obtida;
II - quem modifica, danifica ou destrói ninho, abrigo ou criadouro natural;
III - quem vende, expõe a venda, exporta ou adquire, guarda, tem em cativeiro ou deposito, utiliza ou transporta ovos, larvas ou espécimes da fauna silvestre, nativa ou em rota migratória, bem como produtos e objetos dela oriundos, provenientes de criadouros não autorizados ou sem a devida permissão, licença ou autorização da autoridade competente.


REPASSE ESTE EMAIL

A mensagem reservada de Fellay.

O superior da Fraternidade São Pio X escreve a seus padres: estamos esperando, um acordo acontecerá se não nos pedirem concessões que toquem a fé e se nos garantirem uma verdadeira liberdade.

Por Andrea Tornielli | Tradução: Fratres in Unum.com – O superior geral da Fraternidade São Pio X, o bispo Bernard Fellay, na tarde de 14 de abril, tomou papel e caneta e enviou uma mensagem reservada aos outros três bispos e a todos os padres pertencentes ao grupo Lefebvrista, confirmando o estado das relações com a Santa Sé.

Fellay, fazendo referência às indiscrições da imprensa sobre uma possível solução positiva do diálogo com Roma, teria explicado que, neste momento, ainda nada de definitivo ocorreu, nem em direção de um reconhecimento canônico, nem na de uma ruptura, e que está, assim, em um momento de espera.

O bispo, segundo as informações conseguidas por Vatican Insider, quis confirmar aos padres da Fraternidade o que ele havia escrito há alguns dias, recordando os dois princípios que guiam os lefebvristas nas relações com Roma: o primeiro, é que não sejam pedidas concessões da Fraternidade que toquem a fé e que derivem dela (liturgia, sacramentos, moral e disciplina). O segundo, de que uma verdadeira liberdade e autonomia de ação seja concedida à Fraternidade São Pio X, que lhe permitiria crescer e se desenvolver.

Como interpretar esta mensagem do superior lefebrista? Acima de tudo, é interessante notar que a possibilidade de um resultado positivo — que muitas fontes, tanto aquelas próximas da Fraternidade São Pio X como do Vaticano, consideram neste momento provável e iminente — absolutamente não é negada. Fellay, que sabe ter dentro da Fraternidade um grupo abertamente contrário ao acordo (estimado em torno de 25%, mas que inclui também os outros três bispos, Williamson, Tissier de Mallerais e Galarreta, embora com posições diferenciadas), provavelmente desejava acalmar seus companheiros internos sobre o fato de que um regulamento canônico e a reentrada na plena comunhão levará tempo, segundo aquelas duas condições tornadas públicas por ele nas últimas semanas.

quarta-feira, 4 de abril de 2012

DOMINGO DA PAIXÃO NA FORMA EXTRAORDINÁRIA EM CAMPO GRANDE - MS

Santa Missa do Domingo de Ramos no Rito Tridentino celebrada pelo Revmo. Pe. Marcelo Tenório, da Arquidiocese de Campo Grande-MS, na Paróquia São Sebastião. Deu-se início à Semana Maior com a Benção dos Ramos e procissão em torno da Igreja, onde foi celebrada a Missa Cantada. A Semana toda será celebrada no Rito Tridentino, onde pode-se encontrar a programação no blog Padre Marcelo Tenório














O solene canto da paixão:








segunda-feira, 2 de abril de 2012

A Gnosiologia Tomista

por Paulo Faitanin - UFF

1. Origem: O vocábulo gnosiologia foi utilizado pela primeira vez no século XVII, por Valentin Fromme [1601-1675], que se refere a ele em sua Gnosteologia de 1631. Gnosiologia é o título mais conveniente para nomear o conjunto de questões relativas ao conhecimento. Posteriormente, outros textos o tomariam para designar a Teoria do Conhecimento. Por Teoria do Conhecimento entende-se a análise reflexiva do ato ou da faculdade de conhecer. A inteligência humana está, em sua base, orientada para a verdade; mas por ser limitada em algumas ocasiões por uma má disposição moral do sujeito, o erro pode chegar a afetar os primeiros princípios do conhecimento. Daí ser a Gnosiologia disciplina fundamental para o resgate metafísico da verdade. Não sem razão, a Gnosiologia é denominada Metafísica da verdade ou do conhecimento. À Gnosiologia cabe estudar o ente enquanto se dá na mente humana pelo conhecimento, ou seja, enquanto verdadeiro. Por essa razão, não constitui um estudo particular sobre o conhecimento, mas uma investigação propriamente metafísica. Portanto, a gnosiologia deve ser considerada - ao lado da ontologia e da teodicéia - uma das partes mais importantes da metafísica: é a teoria metafísica do conhecimento. Em razão dos equívocos que a aplicação de certos nomes, tomados como sinônimos podem causar ao referirem-se à gnosiologia, cabe aqui frisar a diferença entre termos tais como Psicologia, Gnosiologia, Antropologia, Epistemologia e Lógica. A Psicologia filosófica, em Tomás de Aquino, refere-se ao estudo da origem e da natureza da alma humana, portanto, da psiqué [alma] humana. A Gnosiologia refere-se ao estudo do ato do conhecimento e da faculdade de conhecer da alma humana, portanto, da gnosis [conhecimento]. A Antropologia filosófica refere-se ao estudo da união substancial de alma e corpo, do modo como se relacionam e operam unidos. A Epistemologia refere-se ao o estudo crítico dos princípios científicos, do modo como, por meio de tais princípios, são demonstrados os conhecimentos. A Lógica refere-se ao estudo do conhecimento universal e certo pelos princípios, cuja finalidade especulativa é tentar descobrir e desenvolver a maneira correta de pensar do homem. Por isso, a palavra gnosiologia que é composta de dois vocábulos: gno/sij + logi/a [gnosis+logia] = gnosiologia serve adequadamente para significar o estudo do ato e da faculdade de conhecer, ou seja, a 'teoria do conhecimento'. Apesar disso, a palavra gnosiologia é ainda pouco usada em português, diferente das demais línguas neolatinas, como espanhol e italiano, nas quais o seu uso pegou desde o início. Talvez, por causa da forte e recente influência das filosofias americana e britânica, tenha-se adotado a versão portuguesa do termo inglês epistemology [epistemologia] para designar a 'teoria do conhecimento'. Contudo, o uso deste termo em língua portuguesa se presta a equívocos, porque designa antes a 'teoria da ciência' que a 'teoria do conhecimento'. O termo epistemologia, enquanto teoria da ciência, melhor designa o estudo a posteriori dos conceitos, métodos, princípios e hipóteses das ciências e, até mesmo, o estudo do seu desenvolvimento real e histórico, do que a análise crítica do ato e da faculdade de conhecer, em si mesmos. Em última instância, por epistemologia designa-se melhor o que se entende por Filosofia da Ciência. Em língua portuguesa o uso do termo gnosiologia cumpre satisfatoriamente os critérios semânticos exigidos para significar a 'teoria do conhecimento'. Em alemão, Erkenntnistheorie refere-se ao estudo reflexivo do ato e da faculdade de conhecer. A Gnosiologia, enquanto teoria do conhecimento designa a parte da Filosofia que antecede o estudo dos conceitos da Metafísica, por estabelecer uma análise e crítica reflexivas do ato e da faculdade de conhecer. O Aquinate defende a capacidade de conhecer a verdade das coisas que cada homem tem, na medida em que pode, pela mesma razão, superar a ignorância e evitar o erro. A Gnosiologia Tomista apresenta como notas mais características, um realismo metafísico, no qual o ser mede o conhecimento, e um realismo antropológico, segundo o qual o intelecto humano alcança a verdade das coisas. É justamente por causa de tudo isso que aqui denominamos Gnosiologia Tomista, a Teoria do Conhecimento Tomista.

2. A Gnosiologia Tomista: 

(a) Onde? Tomás de Aquino [1225-1274] expôs a sua teoria do conhecimento em muitos lugares de sua vasta obra, embora não tenha desenvolvido um tratado gnosiológico. Destacamos aqui, especialmente, as doutrinas encontradas nas principais obras: Suma Teológica; Contra Gentios; De veritate; De anima; Comentários ao De anima; Comentários aos livros da Metafísica; De unitate intellectus.

(b) Método: Via de regra o Aquinate parte da análise das coisas simples para chegar à consideração das mais complexas. Podemos dizer que o método tomista, no geral, é indutivo, ou seja, por via de indução, isto é, aquele que vai do particular ao universal. Analisam-se, primeiramente, as coisas singulares e procura extrair delas o que seja comum de todas. Em linhas gerais, a indução pode ser compreendida como a ida dos efeitos à causa. O processo que extrai dos singulares o que é comum de muitos é denominado abstração. O intelecto abstrai dos singulares o que é comum de todos que por ele é considerado. Fundamentado nos princípios retos que o constituem, ou seja, os primeiros princípios intelectivos, como o da não contradição, o intelecto, mediante a sua aplicação nas coisas singulares que conhece, comparando-as entre si, formula e concebe um conceito, uma noção universal que se diz, predica comumente de todos os singulares considerados antes pelo intelecto. Uma vez estabelecido tais conceitos o intelecto quando os predica das coisas, julga-os, deles fazendo um juízo de veracidade ou falsidade, de acordo com a adequação ou não com o real singular. Daí em diante entra em vigor a via dedutiva, ou a dedução, em que o intelecto pela análise e crítica do conceito em sua aplicação e predicação, julga-o e examina-o segundo a adequação ou inadequação com o real [STh. I,q79,a8,c].

(c) Intenção: O Aquinate é, sobretudo, um teólogo. Sua investigação filosófica subordina-se à teológica. Ao analisar o ser do homem e suas operações, ele tem em vista solucionar possíveis problemas com relação à análise da humanidade de Cristo. Por isso, quando o Angélico procura demonstrar a nobreza das faculdades cognitivas humanas, o seu modo de conhecer, se elas conhecem em verdade e certeza a realidade, tem em mente poder aplicar proporcionalmente estes estudos na análise da humanidade de Cristo. Neste sentido, sua intenção, antes de tudo, é considerar as faculdades cognitivas humanas em si mesmas, sua realidade e veracidade para, assim, adequadamente, aplicar os seus louros na pesquisa teológica à qual a filosófica se subordina. Para tanto, o Aquinate propõe uma análise psico-fisiológica de todo o processo cognitivo do homem. Analisa, pois, a natureza e as funções dos órgãos dos sentidos, seus objetos próprios, a natureza e as funções dos sentidos internos, a natureza e a origem do intelecto etc. Com isso pretende estabelecer que o intelecto tende naturalmente para o conhecimento certo da verdade das coisas e, mais ainda, para o conhecimento da verdade que o transcende: Deus.

2.1. Prolegômenos: Os temas do conhecimento, da verdade e da certeza são fundamentais para a Gnosiologia. Ora, não se pode falar sequer de conhecimento, sem se supor as faculdades e as potências cognitivas. Para tanto, a título de introdução, convém tratar antes das potências cognitivas humanas, começando por dizer algo, muito brevemente e, de modo geral, sobre as potências gerais da alma, e, logo depois, sobre a potência intelectiva.

2.1.1. O homem: O homem é animal racional mortal [STh.I,q29,a4,ad2]. O nome homem nomeia o todo de que é composto, ou seja, o todo que é a alma intelectiva e o corpo [STh.I,q22,a2,c]. O ser humano é uma substância completa, composta de duas outras substâncias incompletas em si mesmas, a substância alma racional e a substância corpo [STh.I,q75,a4,ad1]. É relevante frisar que a substância humana só é completa, quando alma e corpo se encontram unidos, posto que a alma humana é mais completa e perfeita quando unida ao corpo, do que quando separada dele [In IV Sent.d49,q1,a4,qc1,c]. A alma racional é o primeiro ato de ser e primeiro princípio de vida [STh.I,q75,a1,c; De anima,a1,ad15] do corpo fisicamente organizado e que tem a potência de viver [CG.II,61]. Mas a alma intelectiva, cuja origem é por criação [In II Sent. d17,q2,a2,ad3], só é primeiro princípio de vida dos corpos complexos e organizados [In II Sent.d19,q1,a4,ad1]. Neste sentido, o corpo a que se une a alma intelectiva, por infusão, quando este está disposto [De ver. q12,a3,c], deve ser um corpo misto gerado, com adequada complexidade [STh.I,q76,a5,c]. Ora, a alma racional é o que determina, no corpo, a perfeição própria do homem. Portanto, toda capacidade e, mais especificamente, a potência cognitiva, emana, originalmente, da alma racional [STh I,q77,a6,c].

2.1.2. As potências da alma em geral: Como dissemos, a alma racional é uma substância de natureza espiritual, ou seja, de origem por criação divina, princípio de vida do corpo organicamente disposto, do qual é forma e princípio de operação. É a alma, enquanto forma do corpo, que causa vida e operação no corpo. Ora, à vida principiada no corpo seguem-se as operações que a alma racional lhe causa. Destas operações, algumas são propriamente da alma e não dependem do corpo e, por esse motivo, diz-se que a alma, nisto que lhe é próprio, é autônoma e subsistente, pois não depende necessariamente de algum órgão corpóreo para operar como, por exemplo, por aquelas operações ditas intelectivas. Será em razão da nobreza desta operação superior, independente da matéria, que se dirá a alma racional ser algo imaterial incorruptível e subsistente. Há outras operações da alma racional que dependem necessariamente de um órgão corpóreo, como as operações da potência sensitiva, que envolvem os órgãos dos sentidos. E porque dependem de órgãos do sentido, não são operações imateriais e subsistentes em si mesmas, mas operações de algum sujeito material. Ora, sendo a alma racional uma substância que em sua união com o corpo opera de muitos modos, segundo a natureza dos objetos que lhe afetam, podemos dizer que a alma racional possui muitos modos de proceder e possui, também, muitas capacidades, as que aqui denominamos potências da alma.

(a) Definição: por potência entende-se, aqui, o princípio da ação, do agir e do operar [STh.I-II,q55,a2,c]. As potências da alma são, pois, as capacidades que a alma racional para, por meio delas, atingir a perfeição de sua própria natureza.

(b) Natureza: por natureza entende-se, aqui, o princípio intrínseco do movimento de algo [STh.III,q2,a1,c]. A natureza das potências da alma são, pois, o ser e a vida, já que estes são os princípios intrínsecos de seu movimento. E porque das partes da alma humana só o intelecto é incorruptível [In VIII Phys. lec12, n3], segue-se que as potências cognitivas que dela emanam são, também, incorruptíveis, ou seja, imateriais. Mas, isso não significa que todas elas não necessitem operar por meio de algum órgão corpóreo, pois há aquelas que por serem potências da alma racional, só operam, como já dissemos, com o corpo e no composto de alma e corpo. Ora, vimos até aqui, que a alma racional é uma natureza substancial que possui capacidades de realizar a sua natureza por operações. Sendo assim, a natureza da alma racional não opera por si mesma, senão por meio de sua potência de operar. Deste modo, as potências da alma não são a sua natureza, senão aquilo pelo qual a natureza opera [STh I,q77,a1,c]. E não é contrário à natureza da alma racional afirmar-lhe potências, já que a sua natureza é ato, embora não seja ato puro, como se não precisasse aperfeiçoar-se. E porque precisa atingir a sua própria perfeição, este ato, que ela é, a dispõe, a potencializa para ulteriores atos que a aperfeiçoem. Portanto, ela está em potência para ulteriores atos que a aperfeiçoem.

(c) Sujeito: Por isso, dentre tais potências, algumas existem na alma intelectiva, como em seu sujeito, como o intelecto e, outras, como a potência sensitiva, tem por sujeito o composto. Do que se segue que, embora as potências sejam da alma, nem todas a tem, imediatamente, por sujeito [STh I,q77,a5,c]. Por conseguinte, nem todas as potências da alma racional permanecem na alma separada do corpo, senão, somente, aquela que tem a própria alma intelectiva por sujeito [STh I,q77,a8,c]. 

(c) Necessidade: é óbvio que se ela possuísse em ato a perfeição a que está em potência de adquirir, não teria potências para adquiri-la; justamente por não possuir em ato as perfeições que pode adquirir, ela tem potências que a capacitam adquiri-las, por operações que ainda estão por aparecerem. E como a alma racional se ordena a muitas coisas e perfeições de que carece, é necessário que haja nela muitas potências [STh I,q77,a2,c].

(d) Quantidade: Por isso, tantas serão as potências, quantos forem os objetos que, distintos entre si, atualizem alguma perfeição da alma racional [Sth I,q77,a3,c]. Cabe ressalvar que as potências não são originadas dos objetos, senão da alma intelectiva mesma. Contudo, são os objetos que as fazem necessariamente emanar da alma.

(e) Hierarquia: segue-se do anterior que deve haver ordem entre as potências da alma, porque embora sejam muitas as potências, uma única é a alma racional [STh I,q77,a4,c]; daí que uma potência da alma procede de outra, segundo a ordem e a hierarquia que há na alma racional [STh I,q77,a7,c].

2.1.3. As potências da alma intelectiva: Uma vez relatadas as potências gerais da alma racional, analisemos as potências intelectivas. São cinco as potências da alma intelectiva, pelas quais a alma humana opera e atualiza as suas perfeições: a potência vegetativa, a potência sensitiva, a potência apetitiva, a potência locomotiva e a potência intelectiva [STh I,q78,a1,c]. Destas cinco tratemos das três fundamentais: a vegetativa, a sensitiva e a intelectiva, já que a locomotiva inclui-se na sensitiva e intelectiva e a apetitiva na intelectiva.

(a) Potência vegetativa: A potência vegetativa afirma-se propriamente das espécies vegetais [STh.I,q78,proêmio]. Mas diz-se no homem ser uma função, uma capacidade vegetativa. Por que ela existe no homem? Toda potência superior contém em si mesma a potência inferior, que dela emana. Já vimos que a potência superior é a intelectiva. Ora, a intelectiva que é potência própria do homem, possui como perfeição sua a potência vegetativa. Por isso, a potência vegetativa é uma potência natural que pertence ao vegetal e ao animal [STh.III,q33,a1,obj4;I,q78,a2,c], na qual se inclui a espécie humana. Segue-se do anterior que se afirma a potência vegetativa de todo corpo animado que possui, como partes vegetativas, a nutrição, o crescimento e a geração [STh I,q78,a2,c].

 (b) Potência sensitiva: a potência sensitiva, é uma potência passiva cuja natureza é ser modificada por um objeto sensível exterior; como vimos acima, a potência sensitiva, embora seja potência da alma racional, ela tem por sujeito o composto de corpo e alma racional e, para tanto, exige, para a sua operação, órgãos dos sentidos externos, pelos quais opere, pois tais órgãos existem em função da potência e não o contrário; por tudo isso, se fazem necessários - os cinco sentidos externos - ou seja, a visão, a audição, o tato, o olfato e a gustação [STh I,q78,a3,c] e os seus respectivos órgãos dos sentidos externos: os olhos, o ouvido, a pele, o nariz e a boca, seus respectivos sensíveis próprios: luz -cor-, som -agudo-, superfície -áspera-, odor -suave- e sabor -doce-. Estes órgãos dos sentidos externos produzem, pelos cinco sentidos, algo que a potência sensitiva percebe externamente pelos próprios órgãos e, também, internamente, pelos sentidos internos. O homem deve, portanto, em sua potência sensitiva, não só receber as espécies das coisas sensíveis, no momento em que os órgãos dos sentidos são modificados por elas, mas ainda imaginá-las, percebê-las, retê-las e conservá-las. Para tanto, para perceber e guardá-las internamente, a potência sensitiva dispõe também de - quatro sentidos internos - o sentido comum, pelo qual recebe a forma sensível das coisas sensíveis, a imaginação que retêm estas formas sensíveis, a cogitativa, que permite associá-las e a memória sensitiva, para conservá-las [STh I,q78,a4,c].

2.1.4. Potência intelectiva: para a Gnosiologia são fundamentais as potências intelectivas, por isso merecem um tratamento a parte. Dentro da potência intelectiva há a potência cognitiva -intelecto- e a potência apetitiva -vontade-.

2.1.4.1. A potência cognitiva:

(a) o intelecto: a palavra intelecto provém de intus legere, 'ler por dentro'; trata-se de uma potência cognitiva da alma humana, por meio da qual a alma conhece algo de si, algo do que lhe rodeia e algo do que lhe transcende. O intelecto é a mais nobre potência da alma, mas não a própria natureza da alma [STh I,q79,a1,c]. Difere dos sentidos [In I Met.lec2,n45; In II Met.lec1,n282-286]; seu objeto é a verdade [In VI Met.lec4,n.1230-1240]; possui duas operações, uma indivisível e outra de composição [In VI Met.lec4,n.1232]; está ordenado ao inteligível [In XII Met.lec8,n.2540]; humano é imaterial [In IX Met.lec11,n2624]; divino inteligi-se a si mesmo [In XII Met.lec11,n2611-2626]. 

(b) objeto próprio do intelecto: o ente é o que primeiro considera e conhece o intelecto [In I Met. lec.2, n.46]; o intelecto ordena-se ou orienta-se primeira e naturalmente à consideração do ente. O ente diz-se do que tem ser. Portanto, tudo que tem ser é ente e a isso ordena-se o intelecto. É o sujeito da Metafísica [In IV Met. lec.1, n.529-531]. Não é gênero, pois não possui diferença [In I Met. lec.9, n.139]. É o que tem ser [In XII Met. lec.1, n.2419]. É tomado do ato de ser [In IV Met. lec.2, n.556-558]. Diz-se da substância [In III Met. lec.12, n.488-493]. É considerado de quatro modos: do acidente, da verdade da proposição, dos predicamentos e se divide em ato e potência [In VI Met. lec.2, n.1171]. Pode ser essencial, acidental, real e de razão, dos predicamentos e do ato e da potência [In V Met. lec.9, n.885]. Ente por acidente não é propriamente ser [In XI Met. lec.8, n.2272]. Não há ciência acerca do ente por acidente [In VI Met. lec.2, n.1172-1176]. Ente de razão é próprio da Lógica [In IV Met. lec.4, n.574]. É o que primeiro capta o intelecto [In I Met. lec.2, n.46].

(c) ação própria do intelecto: conhecer a realidade e dela apreender a verdade; esta é a ação própria do intelecto; a verdade é o que visa o intelecto, quando ele considera o ente; por isso, a verdade é a adequação do intelecto com a coisa, que é um ente. O conhecimento da verdade é por dupla via: por resolução e por composição [In II Met. lect. 1, n.278]; o seu conhecimento implica dupla dificuldade: uma da parte das coisas e outra da parte de nosso intelecto [In II Met. lect. 1, n.279-286]; para o seu conhecimento os homens se ajudam duplamente: direta e indiretamente [In II Met.lect. 1, n.287-288; lect. 5, n.334]; é conveniente buscá-la [In II Met. lect. 5, n.335-336]; dos primeiros princípios é previamente determinada, e resolvem muitas dificuldades em sua aplicação [In III Met. lect. 1, n.338]; o verdadeiro e o falso nas coisas não são senão afirmar e negar [In IX Met. lect. 11, n.1896-1901; In VI, lect. 4, n.1230-1240]; está mais no ato que na potência e mais nas simples que nas compostas [In IX Met. lect. 11, n.1910-1913].

(d) o processo de conhecimento pelo intelecto: a abstração é o processo próprio do modo como o intelecto conhece o ente; o intelecto não conhece as coisas nele mesmo, senão, pela abstração, depois da recepção das formas sensíveis impressas que, impregnadas de materialidade e individualidade, são depositadas, pela potência sensitiva, nos sentidos internos, cuja separação da materialidade e individualidade é feita pelo processo de abstração. Designa em Tomás uma atividade do intelecto pela qual considera a forma comum de um objeto separada (abstraída) de sua matéria e de suas condições individuais. Ela é tríplice: da matéria, dos inferiores e dos sentidos [In I Met. lec. 10, n. 158; In III Met. lec. 7, n. 404-405; In VIII Met. lec. 1, n. 1683 e In XII Met. lec. 2, n. 2426]. A abstração da matéria é de quatro modos: matéria sensível, inteligível, comum e individual [In VI Met. lec. 1; In XI Met. lec. 7, n. 2259-2264]. 

(e) a passividade do intelecto: no primeiro momento do ato de conhecimento, o intelecto é passivo, porque recebe as informações que as potências sensíveis, tanto interna, quanto externa, fornecem para a alma; por isso, conhecer é padecer, enquanto isso significa receber aquilo para o qual estava em potência, sem que nada lhe fosse tirado [STh I,q79,a2,c].

(f) a atividade do intelecto: num segundo momento do ato de conhecer, o intelecto é agente, pois é necessário que o próprio intelecto, depois de recebidas as formas sensíveis, - as espécies impressas ou imagens - opere e as coloque em ato, pela abstração das formas inteligíveis, formando novas espécies - as espécies expressas ou conceitos -, na medida em que as conhece em ato e as torna semelhantes a ele e subsistentes nele [STh I,q79,a3,c]. O intelecto agente é potência intelectiva, ou seja, existe na alma humana como sua potência de entender as coisas em ato. Cada homem possui o seu intelecto individualmente; e este se assemelha, por natureza e perfeição, aos dos demais homens. Portanto, ele não existe separado da alma, embora não dependa de algum órgão do corpo para operar no que lhe é próprio [STh I,q79,a4,c], nem é único ou um só para todos os homens [STh I,q79,a5,c].

(g) partes da potência intelectiva: São seis as partes da potência intelectiva, com as quais o intelecto concebe um conceito verdadeiro, certo, abstrato, universal ou comum de muitos: a memória, a razão, a razão superior e inferior, a inteligência, o intelecto especulativo e prático, a sindérese, a consciência. - a memória - é parte da potência intelectiva da alma humana responsável por reter, conservar e recordar as imagens inteligíveis das coisas que são apreendidas [STh I,q79,a6,c]. Como tal, a memória não é uma outra potência distinta da potência intelectiva, senão que é da mesma potência intelectiva, pela qual além de ser potência passiva é conservativa [STh I,q79,a7,c]. - a razão - é parte da potência intelectiva da alma humana responsável pelo raciocinar, ou seja, ir de um objeto conhecido a outro; mas isso não difere a razão do intelecto, senão por causa das funções e não da natureza, pois uma coisa é o conhecer, que é simplesmente apreender a verdade inteligível, e outra coisa é raciocinar, como foi dito acima [STh I,q79,a8,c]. - a razão superior e a razão inferior - não são também duas potências distintas da potência intelectiva, senão que são dois nomes distintos dados a duas funções distintas de uma mesma natureza: a razão superior é a sabedoria, conhecimento conseqüente dos hábitos dos primeiros princípios indemonstráveis e a razão inferior é a ciência, conseqüente da aplicação dos hábitos dos primeiros princípios na demonstração das coisas temporais [STh I,q79,a9,c]. - a inteligência - é propriamente o ato mesmo do intelecto, que é o inteligir e não é uma outra potência, senão o ato da potência intelectiva [STh I,q79,a10,c]. - o intelecto especulativo e o prático - não são duas potências ademais da intelectiva, senão que são a consideração da mesma potência intelectiva, segundo os seus fins: especulativo, que não ordena o que apreende para a ação e o prático, que ordena para a ação aquilo que apreende [STh I,q79,a11,c]. - a sindérese - não é parte da potência intelectiva, nem mesmo é uma outra potência do intelecto, não é senão um hábito natural do intelecto que entende e concebe os princípios da ordem da ação que incita ao bem e condena o mal, na medida em que julga o que encontramos, mediante os primeiros princípios [STh I,q79,a12,c]. - a consciência - significa aquilo que implica a relação do conhecimento com alguma coisa, não é uma potência, mas um ato que atesta, obriga ou incita ou ainda acusa, reprova ou repreende, mas tudo isso resulta da aplicação de algum conhecimento ou ciência que temos do que fazemos, por isso, consciência é conhecimento com um outro. Neste sentido, a consciência forma parte da potência intelectiva, não como uma outra potência, senão como um ato pelo qual se aplica o conhecimento de alguma coisa [STh I,q79,a13,c].

2.1.4.2. A potência apetitiva: 

(a) definição: por potência apetitiva entende-se a inclinação natural da alma racional, ou seja, da forma humana para aquilo que lhe é natural, daí o apetite natural [STh I,q80,a1,c].

(b) tipos de potência apetitiva: há o apetite da potência sensitiva - o concupiscível e o irascível - e o apetite da potência intelectiva - a vontade -, que são potências diferentes por causa não só de seus atos e objetos, mas também por causa de seus respectivos sujeitos: a potência sensitiva, tanto o concupiscível, quanto o irascível, têm por sujeito o composto de alma racional e corpo, e a intelectiva, a vontade, tem por sujeito a alma. Ambas as potências distinguem-se entre si, tendo em comum o fato de serem potências passivas, cuja natureza é ser movida pelo objeto apreendido e visto que o objeto apreendido pelo intelecto é de gênero diverso do objeto apreendido pelo sentido, segue-se que o apetite intelectivo é uma potência distinta da potência do apetite sensitivo [STh I,q80,a2,c].

(c) apetite sensitivo: - a sensibilidade - não é apenas apetitiva, mas também cognoscitiva, de qualquer modo este é o nome do apetite sensitivo; a operação da potência apetitiva sensitiva se dá por um movimento sensível, causado pela apreensão sensível, como se atesta a seguir: a visão é a sensibilidade que resulta da relação que há entre o órgão sensorial - os olhos - e o objeto sensível, na apreensão de sua forma sensível [STh I,q81,a1,c/De ver. q25]. Outro nome é o de sensação, que em parte serve para nomear esta relação que acabamos de mostrar.

(d) tipos de apetites sensitivos: o apetite sensitivo se distingue em concupiscível e irascível, como duas potências distintas do apetite sensitivo; porque o apetite sensitivo é uma inclinação natural conseqüente da apreensão sensitiva, deve haver, portanto, na parte sensitiva, duas potências apetitivas: - o concupiscível - pela qual a alma humana é absolutamente inclinada, por conseqüência da apreensão sensitiva, a buscar o que lhe convém na ordem dos sentidos e a fugir do que pode prejudicar; - o irascível - pela qual a alma humana resiste às causas de corrupção e aos agentes contrários que põem obstáculo à aquisição do que convém [STh I,q81,a2,c]. É a razão que move e dirige o apetite sensitivo, portanto estas duas potências sensitivas, o apetite sensitivo concupiscível e o apetite sensitivo irascível, obedecem à razão, quanto ao mando e ato e submete-se à vontade, quanto à execução sendo, portanto, desta maneira que elas obedecem à razão [STh I,q81,a3,c].

(e) apetite intelectivo: - a vontade - é um apetite superior ao apetite sensitivo, não havendo nela nem concupiscível, nem irascível [STh I,q82,a5,c/De ver.q23]; é a inclinação natural do intelecto para algo; por isso, diz-se apetite do intelecto ou da razão; assim como se chama natural o que é segundo a inclinação da natureza, denomina-se voluntário o que é segundo a inclinação da vontade, que deseja alguma coisa de maneira necessária [STh I,q82,a1,c], embora não queira por necessidade tudo o que ela queira [STh I,q82,a2,c]. A vontade não é uma potência superior ao intelecto, pois o objeto próprio do intelecto é mais nobre e está nele mesmo, como quando se diz que a verdade e a falsidade a que consideram o intelecto estão na mente, enquanto o objeto próprio da vontade está na coisa, como quando se diz que o bem e o mal, a que tendem a vontade, estão nas coisas. Ora, o que é mais abstrato e nobre e reside no intelecto é superior em relação a tudo o que não seja abstrato e nele não esteja. Neste sentido, a vontade é inferior ao intelecto e, inclusive, depende dos princípios do intelecto para executar a sua ação [STh I,q82,a3,c], mas isso não significa que a vontade mesma não possa mover o intelecto, já que o objeto próprio da vontade, o bem, é causa eficiente de todas as potências da alma, inclusive, do intelecto, excetuando-se a potência vegetativa, que não é submetida ao nosso querer [STh I,q82,a4,c]. - o livre arbítrio - é uma potência [STh I,q83,a2,c/De ver.q24] apetitiva-cognoscitiva [STh I,q83,a3,c] que faculta o homem julgar os objetos do apetite sensitivo e do apetite intelectivo, segundo o que deles conhece, cujo julgamento não resulta de um instinto natural, senão de certa comparação da razão frente à orientação de certas apreensões sensíveis e inteligíveis; e é necessário que o homem julgue livremente, pois isso é uma exigência natural do ser racional [STh I,q83,a1,c]; o livre-arbítrio não é senão a própria potência apetitiva do intelecto, pois assim como o intelecto está para a razão, tratando-se da apreensão intelectiva, da mesma maneira, tratando-se do apetite intelectivo, a vontade está para o livre-arbítrio, que nada mais é do que a potência de escolha [STh I,q83,a4,c]. Assim, o intelecto tem por um lado a potência de raciocinar (razão), enquanto vai de um conhecimento a outro e, por outro lado, tem a potência de querer (vontade), enquanto isso é um simples desejo e tem a potência de eleger (liberdade), enquanto deseja alguma coisa por causa de outra que se quer conseguir [STh I,q83,a4,c].
 
2.2. O conhecimento humano: de tudo o que vimos até agora, podemos resumir dizendo que as potências sensitiva e intelectiva orientam o homem, pela busca natural da alma humana, ao conhecimento da verdade inteligível, a partir do conhecimento sensível, e os apetites sensitivo e intelectivo, inclinam o homem para o bem e verdade respectivamente. Todo o conhecimento humano se estrutura neste edifício psico-fisiológico da interação intelecto-sentidos e vontade-sensibilidade. Vejamos, agora, passo a passo, como se dá o conhecimento, o que é a verdade e como podemos ter certeza, evitando a opinião, a dúvida, o erro e a ignorância, de que tal conhecimento da verdade é certo e universal.

2.2.1. Do conhecimento: 

(a) Etimologia: deriva de cognitio que significa, em seu sentido amplo, sem distinguir as diferentes faculdades das quais deriva, seja ela intelectiva ou sensitiva, excetuando os vegetais, o produto de um processo em que a faculdade do conhecimento recebe a forma do objeto, sem que com isso o cognoscente perca a sua forma e sua identidade ou que o objeto conhecido, fique sem a sua forma.

(b) Definição: Em seu sentido estrito, conhecimento significa o ato pelo qual o objeto conhecido se encontra no sujeito que conhece [STh.I,q79,a2,c; I,q12,a4,c]. De que maneira se dá isso? Dá-se por assimilação, pois todo conhecimento faz-se por assimilação do conhecido no cognoscente [CG.I,65,n537], formando no cognoscente uma imagem do objeto conhecido [CG.II,77,n1581]. Esta imagem é a espécie sensível ou inteligível, de tal maneira que todo conhecimento se dá pela informação de alguma espécie da coisa conhecida, assimilada pelo cognoscente [In I Sent.d3,q1,a1,obj3].

(c) Adâmico: Em Adão há que se distinguir o modo de conhecimento antes da queda e depois da queda. Antes da queda, o conhecimento adâmico era reto, certo e verdadeiro, porque ele estava ordenado perfeitamente, em todo o seu ser, para conhecer a verdade, além de ter o conhecimento de todas as coisas [STh.I,q94,a3,c; In II Sent.d23,q2,a3,c; De ver.q18,a6,c]. Depois da queda, o conhecimento adâmico foi encalçado no erro, na malícia e no engano, sendo necessário o reto uso dos primeiros princípios do conhecimento para evitar o erro e conhecer a verdade [STh.I,q94,4,c; In II Sent.d23,q2,a3,c; De ver.q18,a6,c].

(d) Princípio: por princípio entende-se, aqui, aquilo de que algo procede e que contribui para a produção e demonstração de qualquer coisa [STh.I q33 a1, c]. O conhecimento sensível tem a sua origem na relação entre os órgãos dos sentidos e os objetos sensíveis externos [STh.III,q30,a3,ad2]. O princípio do conhecimento humano, neste sentido, pode ser considerado de dois modos: por parte da alma intelectiva e por parte do corpo. Por parte da alma intelectiva, o princípio do conhecimento humano são as próprias potências intelectivas - intelecto e vontade - e, por parte do corpo, o princípio do conhecimento humano são as próprias potências sensitivas - os sentidos externo e internos. Mais propriamente, diz-se que o princípio do conhecimento está nos sentidos, pois neles se encontram a máxima certeza [STh.III,q30,a3,ad2]. Nesta circunstância todo o conhecimento humano depende do que lhe fornece os sentidos e deles o intelecto abstrai as suas formas inteligíveis, por meio das quais conhece a natureza daquilo que concebe [STh I,q84,a1,c]. A alma racional conhece as coisas inferiores por abstração, a partir da experiência sensível que delas obtém [STh I,q86,a1,c].

(e) Sujeito: por sujeito entende-se, aqui, o que subjaz ou subsiste como substância [STh.I,q29,a2,c]. O sujeito do conhecimento pode ser tanto a alma intelectiva, quanto o corpo. Mas como todo conhecimento humano tem seu sujeito a alma intelectiva, é ela propriamente o sujeito do conhecimento. A alma intelectiva conhece por meio do intelecto os corpos dos seres, mas os conhece de maneira imaterial, universal. Mas ao intelecto convém, maximamente, a capacidade de conhecer tudo o que é imaterial [STh.I,q84,a1,c; III,q11,a1]. Por isso, o conhecimento da alma em parte é intelectivo e em outra parte, sensitivo [STh.I,q54,a3,ad1].

(f) Objeto: por objeto entende-se, aqui, aquilo a que se refere à potência ou ao hábito do conhecimento [STh.I,q1,a7,c]. Aquilo a que se refere à potência intelectiva e o conhecimento é o ente. O ente é o que primeiro capta o intelecto [In I Met. lec.2, n.46]. Por isso, o ente é o objeto próprio do conhecimento da alma intelectiva. São duas as categorias de objeto: o ente sensível e o ente imaterial [STh.I,q12,a4,c]. O ente sensível, que é a realidade singular, seu conhecimento antecede, é anterior ao conhecimento do ente universal como, também, é anterior o conhecimento sensível com relação ao inteligível [STh.I,q85,a3,c;I,q6,a1,ad2;I,q59,a1,c]. A alma pode, ainda, conhecer as realidades que lhes são superiores, como as verdades mais universais ou as substâncias angélicas ou o que de Deus se pode conhecer, por analogia, a partir do que o intelecto apreende e entende do que considera pelos sentidos [STh I,q88,a1,c].

(g) Causas: há duas ordens de causas: uma sensível e outra imaterial. A causalidade da ordem sensível: a causa eficiente do conhecimento é o próprio ente; a causa formal é a verdade do ente; a causa material são a materialidade e a individualidade do ente e a causa final é a adequação do intelecto com a coisa e o seu conceito. A causalidade da ordem imaterial: visto que o intelecto é mais apto a conhecer as realidades imateriais do que as materiais, seria errôneo não haver, também, uma causalidade da ordem do conhecimento imaterial: a causa eficiente é o ente imaterial; a causa forma é a verdade e a final é o conceito, sendo excetuada a causa material, por não ter a matéria o ente imaterial. E porque tudo se converge para Deus, Ele é a causa última do conhecimento da alma intelectiva. Cabe frisar que a causa próxima do conhecimento intelectivo é o conhecimento sensível. Mas este não é a causa de todo conhecimento intelectivo, já que o intelectivo vai além do conhecimento sensível [STh.I,q84,a6,c].

(h) Tipos: há dois tipos de conhecimento: um natural e outro sobrenatural. A potência intelectiva ordena-se, primeiramente, para o conhecimento natural. O conhecimento natural, por sua vez, é de dois tipos: o conhecimento sensível que conhece material e concretamente e o conhecimento inteligível, que conhece imaterial, abstrata e universalmente [STh.I,q86,a1,ad4]. O conhecimento é pelo modo da abstração e segue a ordem que vai do sensível ao inteligível, ou do particular ao universal [STh I,q85,a1,c]. Mas a alma conhece também as coisas imateriais, pois ela se conhece a si mesma. A alma se conhece a si mesma por reflexão, por comparação do que não existe em si, com o que existe em si, bem como do que lhe é revelado e não contraria os seus princípios [STh I,q87,a1,c]. Sobre o conhecimento sobrenatural vale destacar o conhecimento da alma separada do corpo. A alma separada do corpo não conhece senão por infusão, que é a iluminação, ou por reflexão, por recordar em si o que dela já conheceu. No caso do conhecimento sobrenatural Deus o permite, em vista de um bem comum ou mesmo de um bem individual maior [STh I,q89,a1,c;De ver. q19]. A alma separada não abstrai, porque não utiliza as faculdades sensíveis para conhecer. A abstração supõe o conhecimento sensível.

(i) Modos: por conhecimento compreendemos o ato de entender algo por meio de alguma faculdade cognitiva: conhecimento sensível é o que resulta imediatamente da ação dos objetos sensíveis externos sobre os sentidos; conhecimento inteligível é o que resulta da abstração do conhecimento sensível. Assim, dois são os modos do conhecimento: um por parte do corpo, a sensação e outro por parte da alma, a abstração. Da abstração, falaremos mais abaixo. Por sensação entende-se, aqui, o que se produz por parte dos sentidos externos. O modo como os sentidos apreendem a forma sensível do objeto sensível externo é a sensação. Neste modo, os órgãos dos sentidos retêm, juntamente com a forma sensível, as impressões sensíveis acidentais próprias, como a cor no sentido da visão e os sensíveis acidentais comuns, como a extensão, a altura e a profundidade, que são comuns aos objetos sensíveis de qualquer sentido, pois há também na audição a extensão, a altura e a profundidade. Sensível é qualquer apreensão pelos sentidos, de qualquer coisa material, em que se requer um sentido e um órgão do sentido e algo - o intelecto - que os relacione [STh.I,q12,a2,c]. O objeto próprio do conhecimento sensível são os objetos sensíveis externos, cuja finalidade é apreender a forma sensível do objeto sensível externo. Por abstração designa-se aqui, uma atividade do intelecto pela qual se considera a forma comum de um objeto separada (abstraída) de sua matéria e de suas condições individuais. Ela é tríplice: da matéria, dos inferiores e dos sentidos [In I Met. lec. 10, n. 158; In III Met. lec. 7, n. 404-405; In VIII Met. lec. 1, n. 1683 e In XII Met. lec. 2, n. 2426]. A abstração da matéria é de quatro modos: matéria sensível, inteligível, comum e individual [In VI Met. lec. 1; In XI Met. lec. 7, n. 2259-2264].

(j) Valor: por valor entende-se, aqui, o que deve ser objeto de preferência ou escolha. O conhecimento tem valor, porque produz uma representação verdadeira da coisa conhecida [In IV Met.lec14-15]. E esta representação é certa porque se pauta nos primeiros princípios do conhecimento, que são verdadeiros e evidentes em si mesmos, cujo máximo princípio é o da não contradição [In IV Met.lec6]. Embora o intelecto se direcione retamente ao conhecimento da verdade, ele pode incidir no erro e isso por tais razões: por causa da complexidade do objeto e, neste caso, o intelecto pode errar quando julga [In II Sent.d5,q1,a1,ad4]; por causa do grau de participação, por ser o objeto conhecido maximamente dessemelhante da natureza do cognoscente e não participar dos seus princípios [STh.II-II,q53,a3-4] e por causa da paixão, pois esta pode induzir o intelecto ao erro no juízo [In II Sent.d5,q1,a1].

2.2.2. Da Verdade: 

(a) Etimologia: a palavra verdade provém do termo latino veritas.

(b) Definição: É a máxima expressão do conhecimento. É a adequação entre o que o intelecto concebe do real e o que é o real em si mesmo. A verdade consiste, pois, nalguma adequação entre o intelecto e a coisa e é uma exigência fundamental do intelecto [In III Sent.d33,q1,a3,sol3]. Por adequação entende-se, aqui, a igualdade. Por igualdade entende-se, aqui, certa proporção ou similitude que se afirma entre duas coisas que se relacionam entre si [De malo,q16,a3,c;STh.I,q42,a1,ad2].

(c) Existência: ora, sendo uma exigência fundamental do intelecto, a verdade é uma noção só perceptível pela mente [In I Sent.d19,q5,a1,c], mas manifesta e declara o ser da coisa [De Ver., q.1,a.1,c]; por isso, a verdade existe principalmente no intelecto e só, secundariamente, nas coisas, na medida em que são comparadas com o intelecto, como a um princípio [STh.I,q16,a1,c]. Existe primeira e propriamente no intelecto divino [STh.I,q16,a5,ad2] e só própria e secundariamente no intelecto dos homens [De ver.q1,a4,c;STh.I,q16,a1,c]. Pode-se dizer que a verdade encontra-se nos sentidos, mas não do mesmo modo como se encontra no intelecto, pois no intelecto ela está por reflexão e nos sentidos como resultado dos seus atos, sem conhecer a verdade em si [De ver.q1,a9,c]. A verdade pode encontrar-se na mente: em potência - quando o intelecto não a possui ainda em ato, seja por mera negação, na medida em que o intelecto não pode conhecer a verdade [De princ.nat.c2], ou por privação, na medida em que pode e deve conhecer a verdade, mas dela ainda se encontra privado [In I De caelo,lec6;In I Sent.d13,q1,a4,c]; o erro é o juízo falso ou inadequado que ocorre no estado em que a verdade encontra-se em potência no intelecto, ou seja, é aprovar o falso por verdadeiro [De malo,q3,a7,c]; em ato imperfeito - quando o intelecto ainda não a possui em perfeição, por algum impedimento, seja a dúvida, quando o intelecto versa sobre a verdade sem o assentimento ou juízo, por encontrar-se entre duas teses opostas [In III Sent.d17,q1,a4,c;De ver.q14,a1,c], seja a opinião, quando o intelecto versa sobre a verdade com o assentimento ou juízo, que aceita uma proposição, com o temor que seja verdadeira a sua contraditória [STh.I,q79,a9,ad4;In III Sent.d23,q2,a2,c1;De ver.q14,a1,c]; em ato perfeito: quando o intelecto o possui perfeitamente, com certeza, ou seja, com a firme adesão da faculdade cognitiva ao objeto conhecido [In III Sent.d26,q2,a4;d23,q2,a2,c3], pelos princípios universais indemonstráveis [STh.I-II,q112,a5,c].

(d) Fonte: Deus é a única e absoluta verdade incriada, enquanto tudo demais criado são verdades. Portanto, há uma única verdade incriada e diversas criadas. Por isso, a fonte de toda verdade é Deus, a primeira verdade, a verdade eterna [STh.Iq16,a7,ad4 e c;De ver.q1,a4,ad3] a que, por meio das Sagradas Escrituras, derivaram as muitas outras verdades nas mentes dos homens [De ver.q1,a8,c;De div.nom.I,lec1;CG.III,47] e tem o seu fim na verdade de fé que é o próprio Cristo [STh.III,q96,a6,ad10]. Por isso, a verdade existe de modo próprio e primeiro no intelecto divino e se identifica com Ele [STh.I,q16,a5,ad2], próprio, mas secundariamente, no intelecto humano, na medida em que imita a verdade da mente divina [CG.I,60] e impróprio e secundariamente nas coisas [De ver.q1,a4,c;STh.I,q16,a1,c]. Deus é a verdade incriada e tudo demais criado é fonte de verdade para o intelecto, na medida em que se tratam de verdades criadas e apreendidas pelo próprio intelecto [STh.I,q16,a6,ad1;In I Sent.d19,q5,a2,obj2;De ver.q1,a4,ad7], posto que estas verdades têm fundamento nas coisas [In I Sent.d19,q5,a1,c]. 

(e) Natureza: ora, se a verdade existe principalmente na mente, assemelha-se a ela por natureza; mas a natureza do intelecto é imortal e incorruptível, portanto, a natureza da verdade é a de um conceito incorruptível [STh.I,q61,a2,ob23;De ver.q1,a5,obj13-15;CG.II,83], embora só em Deus seja imutável e no intelecto mutável, já que no intelecto pode-se mudar de verdade para falsidade [STh.I,q16,a8,c;CG.III,47].

(f) Modos de conhecer: de três modos o intelecto conhece a verdade: de um modo natural, quando conhece a sua própria natureza, a verdade inerente [De ver.q1,a5,c] e seus verdadeiros princípios e isso, mediante a reflexão, adquirida, quando conhece a verdade das coisas, mediante os seus primeiros princípios verdadeiros, por abstração e, por infusão, quando a conhece por revelação divina, direta ou indiretamente [STh.I,q60,a1,ad3]. A verdade que o intelecto adquire, ele apreende da realidade e na medida em que se confirma o ser da realidade no intelecto [STh.I,q16,a5,c].

(g) Tipos: segundo os modos de conhecer a verdade, estabelece-se três tipos de verdade: a verdade lógica, a verdade ontológica e a verdade eterna. A verdade lógica é a que se refere ao que resulta do juízo que o intelecto faz sobre alguma realidade, ao afirmar ou negar se ela é ou não verdadeira [De ver.q1,a3,c;In III Sent.d23,q2,a2,c1;In VI Met.lec4]. A verdade lógica não existe formalmente na simples apreensão, mas só no juízo. E ela existe no intelecto enquanto término do conhecimento, ou como o que é conhecido pelo intelecto [In VI Met.lec4,n.1233-1236;In III De anima, lec11,n746;De ver.q1,a3 e 9;CG.I,59;STh.I,q16,a2,c]. Por isso, o Aquinate afirma que a verdade tem o seu fundamento na coisa, mas ela se realiza formalmente na mente, quando ela apreende a coisa como ela é [In I Sent.d19,q5,a1]. Neste caso, o que mede é a mente e o medido é a coisa [In I Perrih.lec3,n29-30]. A verdade ontológica é a da coisa, enquanto ela existe em si mesma. A verdade ontológica é substancial ou acidental. A verdade ontológica substancial é a que é causa da realidade do ser [STh.I,q16,a1,c;De ver.q1,a2e4] e a verdade ontológica acidental é o efeito produzido pelo ente no intelecto, e é denominada de inteligibilidade, que é o manifestar da coisa à mente [STh.I,q16,a3,ad3]. A verdade eterna é a verdade divina que ilumina a mente humana pela revelação, ela é única e imutável [In I Sent.d19,q5,a3,ad4;STh.I,q16,a7,c].

(h) Valor: A verdade é um valor? Sim! A verdade é como dissemos uma valor objetivo, porque é expressão intelectiva do ser da coisa. O que é valor? Vejamos: Cada coisa e cada ação estão dotadas de uma intrínseca nobreza e grandeza, mediante as quais são dignas de estima, próprio por aquilo que são e não pelo interesse que por ela tenhamos, pelo sentimento que nos inspira, pela utilidade que nos propõe, pelo bem ou prazer que possam nos causar. Há valor na rosa e no cravo, na água e no fogo, na águia como no leão, no automóvel como no livro, na verdade como na beleza. O valor, portanto, não é o interesse, o preço que o homem manifesta por uma coisa, o apreço por uma pessoa ou por uma ação, senão aquela grandeza, nobreza, dignidade que pertencem à coisa, à pessoa e à ação e que estão na origem do interesse e do preço. Neste sentido, valor é de certo modo um valor transcendental, porque segue o ser da coisa e o valora pelo que ela é. Não é tautológico dizer que o bem é um valor, que a verdade é um valor, pois valor se diz de um e de outro, mas não se identifica nem com um nem com outro. Há hierarquia de valores? Sim! Como vimos acima, nem todos os valores são iguais: não possuem um mesmo valor um automóvel e um copo com água no deserto, uma vida de santidade e uma vida de perversidade. A hierarquia dos valores se dá pela hierarquia dos graus de perfeição das coisas e pela nobreza, dignidade e importância de cada ser: há graus de perfeição do ser – o vegetal tem mais ser do que o mineral, porque possui a perfeição do ser mineral e mais a vida vegetativa; o animal tem mais ser do que o vegetal, porque possui a perfeição vegetal mais a vida sensitiva e o homem tem mais ser do que o animal, porque possui a vida sensitiva e mais a intelectiva. Deste modo, há hierarquia segundo o ser, a dignidade, a importância, o interesse e a estima: um graveto não vale o mesmo que uma casa; e um livro não vale mais que o seu autor. Portanto existem coisas e ações mais nobres e mais importantes e outras menos nobres e importantes. Na escala de valores o máximo ser, digno, importante, interessante e estimado é o máximo valor: Deus, porque é o princípio de todo ser, dignidade, importância e estima [STh. I, q.2, a.3,c]. A hierarquia de valores expressa uma hierarquia de verdades? Sim! Ora, se a verdade é expressão do ser, havendo multiplicidade de seres haverá multiplicidade de verdades e havendo graus de perfeição do ser haverá igualmente graus de valor de verdade. Quanto mais digno, nobre, estimado e perfeito o ser, mais digna, nobre, estimada e perfeita a sua verdade. Há graus de ser pela perfeição de cada ser; graus de verdade segundo tais perfeições e graus de valor segundo tais verdades. O sumo ser será a suma verdade e o sumo valor: Deus. E como em Deus ser e verdade se identificam, em seu intelecto só há um ser e uma só verdade primeira e eterna [De Ver., q.1,a.5,c], mas no intelecto humano haverá muitas verdades temporárias e mutáveis [De Ver., q.1,a.4,c], que não são eternas, nem subsistentes por si mesmas. Sendo, pois, Deus a única verdade eterna a que tende o intelecto [De Ver.,q.1,a.6,c].

(i) Contrário: O contrário da verdade é a falsidade. O que é a falsidade? Do mesmo modo, a falsidade que é a expressão intelectiva de inconveniência, inconformidade e inadequação do intelecto e da coisa, pela dessemelhança da coisa existente fora da alma, ela só existe na mente [STh I,q17,a4/De ver.q1,a10-11]. A falsidade pode ser: lógica, ou a inadequação do intelecto com a coisa ou ontológica, a inadequação da coisa com o intelecto [STh.I,q17,a1,c;a3,c;De ver.q1,a9,c].

2.2.3. Da certeza: 

(a) Etimologia: a palavra certeza deriva da latina certitudo.

(b) Definição: Como vimos, a certeza é a firme adesão da faculdade cognitiva ao objeto conhecido [In III Sent.d26,q2,a4;d23,q2,a2,c3], pelos princípios universais indemonstráveis [STh.I-II,q112,a5,c]. Duas coisas importam para a certeza: a adesão firme e a evidência [De ver.q14,a1,ad7;CG.III,47STh.I,q85,a6].

(c) Tipos: a certeza primeiramente, por ser um estado da mente, uma propriedade da verdade, ela é subjetiva, posto que a verdade existe na mente [In I Sent.d19,q5,a1,c], mas secundariamente, por analogia de atribuição da certeza, é objetiva, pois o nome é indicado para, também, significar o objeto. A certeza é meramente subjetiva se não se funda na certeza objetiva. A certeza verdadeiramente subjetiva, que se funda na objetiva, é certeza formal e possui dois fundamentos: a evidência objetiva ou evidência da verdade e a autoridade, manifesta pela evidência de credibilidade. A certeza formal distingue-se em: certeza de evidência, fundada na certeza da verdade e certeza de , fundada no testemunho de autoridade, manifesto pela evidência de credibilidade. A certeza de evidência distingue-se em: certeza absoluta ou metafísica e certeza condicionada. A certeza condicionada é certeza física e certeza moral. A certeza metafísica é absoluta porque se funda na própria essência da coisa. A certeza física é condicionada porque, se por um lado se funda nas leis naturais, por outro lado, sob certa condição, o milagre não descarta agir para além destes princípios. A certeza moral é condicionada porque, se por um lado o homem é regido por suas leis morais, ordenando suas inclinações e ações para o bem da natureza, por outro lado, sob certa condição, como pelas circunstâncias dos atos e das inclinações, pode-se limitar sua orientação moral. A certeza de fé distingue-se em: natural, ou certeza de fé humana e sobrenatural, certeza de fé divina [STh.II-II,q1,a4,c;De ver.q14,a1,c;In III Sent.d23,q2,a2,c3]. Prova-se a evidência ser o fundamento da certeza por sua infalibilidade, porque a verdade lógica é inseparável da verdade ontológica do objeto.

(d) Evidência: por evidência entende-se, aqui, a clareza de um conceito ou proposição à mente, fundamentado em princípios universais; a evidência é propriedade da verdade, e esta, por sua vez, propriedade do intelecto, na medida em que há adequação do intelecto com a coisa [STh.I,q17,a4,c].

(e) Causa: por causa entende-se, aqui, aquilo de que algo procede como efeito ou aquilo de que, por necessidade, segue uma outra coisa [In V Met. lec.7, n.749] e influi naquilo de que é causa [In V Met. lec.1, n.751]. A causa da certeza subjetiva é a veracidade das potências cognitivas, que atestam sua reta ordenação ao conhecimento da verdade da realidade [CG.III,107;Quodl.V,a9,ad2;VIII,a3;STh.I,q78,a4,ad2;I,q85,a2,ad3], embora os sentidos externos possam errar, por acidente, na busca de tal verdade [STh.I,q17,a2,c;I,q85,a6,c;De ver.q1,a11,c]. A causa da certeza objetiva não é nem o instinto nem as paixões, a afetividade propensa à utilidade da vida, mas a evidência objetiva [In III Sent.d23,q2,a2,c3].

(f) Ceticismo: o ceticismo é a doutrina que coloca em dúvida os princípios de conhecimento. O ceticismo, enquanto tal, é fisicamente impossível e formalmente contraditório. O ceticismo é universal, quando se estende a tudo e pode ser considerado: de fato, enquanto resume-se na atitude individual de agir pondo tudo em dúvida e de doutrina, enquanto resume-se na atitude de propalar, por doutrina, a todos, os princípios da dúvida universal. O ceticismo universal factual é fisicamente impossível, pois é impossível suspender o assentimento de tudo e não aceitar ao mesmo tempo alguns princípios necessários para a própria suspensão do assentimento [In IV Met.lec9,n661]. O ceticismo universal doutrinal é formalmente contraditório, porque afirma e nega ao mesmo tempo tudo que duvida, violando o primeiro princípio da não contradição [In IV Met.lec9,n661,lec7,n611]. O ceticismo é particular, quando se estende a alguns princípios. Pode ser acerca da existência do próprio sujeito, ceticismo subjetivo ou acerca da verdade do objeto, ceticismo objetivo ou subjetivismo.

(f) Idealismo: por idealismo entende-se, aqui, a doutrina que considera o pensamento como o fundamento do ser. É o outro nome para o subjetivismo. O intelecto não conhece somente os atos de sua operação ou o que destes atos se podem conhecer, dele mesmo, por reflexão. Nem mesmo o conhecimento destes atos impede ou exclui a possibilidade de o intelecto conhecer a realidade sensível, pela ordenação dos sentidos externos, abstraindo das impressões sensíveis as espécies inteligíveis. Erram, pois, os que assim entendem [In IV Met.lec9,n661], por sustentarem possuir algum conhecimento inato, a priori do real [STh.I,q84,a3,c].

 (g) Relativismo: Quantas forem as coisas consideradas pelo intelecto humano, tantas serão as expressões intelectivas da adequação do intelecto e das coisas. Assim, uma é a verdade da cadeira e outra a da água, pois a cadeira não pode ser cadeira e água, sob um mesmo aspecto e ao mesmo tempo, nem pode ser cadeira e não-cadeira, ao mesmo tempo. Mas afirmar que a verdade não é única para o intelecto humano não significa dizer que cada intelecto tem a sua verdade? Não! Porque a verdade é valor objetivo e que todo e qualquer intelecto, diante de um mesmo objeto, concebe uma mesma verdade. Uma diversidade de intelectos, que não se distinguem essencialmente, entre si, e que não constituem diversidade de naturezas, diante de um mesmo objeto, conceberá uma mesma verdade, diante de diversos objetos, conceberão diversas verdades. Vejamos, por exemplo: a bola é uma mesma verdade para todos os sujeitos que compõem os dois times de futebol que disputam uma partida final; o campo e a bola são verdades diversas para todos os sujeitos que assistem a esta partida de futebol, ainda que tal jogo fosse assistido por um único torcedor. Por isso, nos mesmos termos, o relativismo é fisicamente impossível e formalmente contraditório.
Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Comente!